32. Cruzando o Infinito
Abri os olhos tentando enxergar, através da minha embassada visão matutina, os números no meu relógio de pulso. "Droga, to atrasado", pensei me revirando na cama. Senti meus lábios ardendo, devido às rachaduras causadas pelo clima seco dos últimos quatro dias no deserto do Atacama. "Seis e meia em ponto, não vá se atrasar" eram as palavras que ecoavam em minha cabeça enquanto caminhava levantando nuvenzinhas de poeira a cada passo pelas ruas de terra de San Pedro de Atacama, com minha mochila nas costas e sem tomar café da manha.
Pensei na jornada que me esperava : tres dias dentro de um jeep 4X4, cruzando o deserto boliviano em direção ao salar de Uyuni - o maior deserto feito de sal do mundo. Conseguir parceiros para a aventura não foi difícil. Pelo menos quatro agencias na cidade faziam o agrupamento de viajantes e a negociação e contatos necessários com os motoristas bolivianos que conhecem o deserto como a palma da mão. Após entrar em cada uma delas e conversar com alguns habitantes locais, descobri que todas cobravam o mesmo preço abusivo, explorando os motoristas do país mais pobre da América do Sul. Resolvi perguntar pelos bares e esquinas da cidade sobre algum motorista que pudesse fazer a viagem diretamente. Estava quase desistindo quando conheci Herman, um boliviano de um metro e cinquenta de altura e aparência indígena. "Pode deixar que eu levo você. Tenho quatro outros turistas interessados. Amanhã, seis e meia em ponto em frente a igreja começamos a viagem. Seis e meia em ponto, não vá se atrasar"
A cidade estava vazia e escura, as luzes dos postes ainda acesas. Fui o primeiro a chegar, dez minutos antes do combinado. Deixei minha mochila cair ao chão, e espreguicei para tentar espantar o sono. Ouvi um ruído grave, seguido de uma nuvem de poeira que se levantou ao meu lado.
- Porcaria de chinelos - gritou a figura desengonçada sentada no solo de terra marrom-avermelhada.
Estendi a mão para ajuda-lo a levantar-se. "Bom dia. Meu nome é Karl. Voce também vai pra Uyuni ?", disse ele tentando limpar a poeira da roupa. Conversei por alguns minutos com o alemão de Hamburgo, que usava um óculos de armação grossa escondendo seus olhos miopes e lutava para consertar as tiras de seu chinelo havaiano. Fomos interrompidos por um casal de mochileiros que se aproximou e disse :
- Ahhh. Graças a Deus ainda não saíram. Estamos atrasados !
"Seis e meia em ponto, não vá se atrasar". Essas eram as palavras que ecoavam em minha cabeça, e talvez nas cabeças de meus novos companheiros de viagem, durante as duas horas e meia que passamos sentados em frente ao ponto de encontro, com sono e sem tomar café da manhã, esperando pelo jeep boliviano. As nove da manhã em ponto, o sol do deserto já queimava implacável. Senti novamente meus lábios ardendo. Vi ao longe uma pequena van dobrando a esquina em alta velocidade, quase tombando ao fazer a curva. Forcei a vista até que a imagem do motorista foi ficando clara. Era Herman.
- Vamos pessoal, estamos atrasados - gritava a diminuta figura como se os atrasados fossemos nós. - Vamos até a fronteira nessa van e após cruzarmos para o lado boliviano pegamos meu Jeep.
Todos colocaram as mochilas na van, e se apressaram em escolher um assento onde pudessem cochilar por alguns minutos. Iniciamos o caminho para a fronteira, mas quando estavamos saindo da cidade, Herman freou bruscamente.
- Espera ai. Ta faltando uma. Cade a garota da Bélgica ?
Para nosso azar, a garota da Bélgica estava dormindo. Mas isso só descobrimos quando alguém atirou um sapato pela janela depois de ouvir a buzina de Herman soando freneticamente em frente ao albergue da moça por dez minutos seguidos. Muitos minutos após o sapato, ela saiu com a mochila nas costas em meio a uma nuvenzinha de fumaça, provocada pelo cigarro que tinha na boca, talvez seu café da manhã.
- Ok pessoal. Estamos un poquito atrasados - disse herman sorrindo.
Tentei contar quantos dentes faltavam em sua boca. Comecei a compreender o que Eistein queria dizer. O tempo era mesmo relativo. Na Bolivia, três horas e meia de atraso podem ser resumidas a uma expressão como: "un poquito atrasados". Após alguns minutos, finalmente chegamos à fronteira boliviana, à 4200 metros de altitude.
- Muito bem, agora todos tem que ir até aquela casinha ali carimbar o passaporte - disse Herman apontando para um barracão com a bandeira da bolívia no teto, que teria aparência de abandonado não fosse pelas três caminhonetes estacionadas ao lado.
- Onde é que é o banheiro hein ? - perguntou a garota da Bélgica após o décimo cigarro.
Herman sorriu. Dessa vez quase tive sucesso em contar o número de dentes que faltavam em sua boca, talvez cinco. Depois gargalhou e disse :
- Banheiro ? Amiga, nessa viagem é tudo natural. Vamos fazer o seguinte. Mulheres vão atrás daquele onibus abandonado. Homens se viram por aí...
- Ai que absurdo - disse a garota acendendo mais um cigarro e caminhando em direção ao onibus abandonado.
Karl também se afastou, talvez tentando encontrar seu próprio banheiro. Fiquei sozinho com o casal de mochileiros, Patrick e Lucien. Logo soube que eram atendentes de voo de uma companhia aérea holandesa passando ferias na América do Sul. Uma pequena fila se formava na porta do precário escritório de imigração boliviano, à medida que jeeps e caminhonetes chegavam com grupos de viajantes interessados em cruzar a fronteira. Meu termômetro de bolso marcava apenas dois graus positivos. O vento forte apenas piorava a sensação de frio. Karl juntou-se novamente ao grupo. Ao ve-lo, Patrick fez a pergunta que eu havia pensado em fazer, mas resolvi evitar :
- Hey Karl, o que aconteceu ? Voce está todo molhado.
- Molhado ? - respondeu ele espantado, olhando para as próprias calças. - Fuck ! Fuck ! Acho que eu mijei contra o vento - gritou se afastando enquanto chutava o chão, bravo consigo mesmo.
A garota da Bélgica não demorou a chegar com novidades. "Que imundice. Aquele onibus abandonado deve estar sendo usado como banheiro há uns cinco anos".
Esperamos mais de trinta minutos na fila para carimbar os passaportes. Dez minutos mais para que nosso amigo alemão pudesse secar-se. Logo estavamos dentro de um Jeep 4X4. Herman havia amarrado todas as mochilas no teto do veículo. O motorista boliviano era simpático, falava muito. "Ok pessoal, proxima parada Laguna Verde", disse ele pisando fundo no acelerador. Estranhamente, à medida que ganhavamos terreno em direcao ao deserto boliviano, todos no carro iam se calando. Comecei a sentir uma sensacao esquisita, como há muito não sentia. Lembrei-me de quando era criança e tinha crises de asma.
- Ha ha - gargalhava Herman. - Que pasa con ustedes ? Estao com falta de ar ?
Todos balançaram a cabeça de maneira afirmativa. A sensação era de haver corrido por uns bons tres ou quatro quilometros à velocidade máxima. O problema é que estavamos apenas sentados dentro de um carro, sem praticar o mínimo esforço físico.
- É a altitude pessoal - disse Herman sorrindo. Agora eu tinha certeza, lhe faltavam cinco dentes. - Estamos a 4800 metros. Aqui falta ar aos turistas. Para voces terem uma idéia, paraquedistas saltam sem oxigenio à no máximo 4200 metros. Bienvenidos a Bolivia.
Montanhas de sete tons de vermelho e picos cobertos de neve desfilavam diante da janela do veículo. Paramos às margens de uma lagoa enorme, aos pés de um vulcão. A água formava um espelho perfeito, refletindo o céu e a majestosa montanha vulcanica.
- Muito bem. Essa é a laguna verde. São exatamente vinte para o meio dia. Tirem as fotos que quiserem e me encontrem em cima daquela elevação exatamente ao meio dia - disse Herman apontando para um ponto mais elevado, à apenas cem metros de onde nos encontravamos. - Não se atrasem, ou voces vão perder a surpresa.
Sentamos por dez minutos às margens da lagoa. O cenário era inacreditável e gigantesco. Senti-me pequeno, como uma gota no oceano. Comecei a caminhar em direcao ao ponto combinado. Caminhei por no máximo cinquenta metros. Perdi a força nas pernas e sentei no chão de areia às margens da lagoa. Não podia ouvir mais nada além da batida acelerada do meu coração, que soava como um bumbo próximo ao meu ouvido. O ar cada vez mais me faltava. Minhas botas pareciam cheias de chumbo. Olhei para trás e ví que todos do grupo também estavam no chão. Era impossível caminhar a passos largos. Começavamos a sentir os efeitos nefastos da altitude. Patrick era o único que parecia não estar incomodado.
- Vamos pessoal. Temos que estar lá ao meio dia. São apenas cem metros.
Caminhamos devagar, usando passos bem curtos. Chegamos exaustos, como se tivessemos corrido 15 quilometros. Ninguém dizia nada, apenas tentavamos puxar o ar para dentro dos pulmoes.
- Bem na hora - disse Herman. - Vejam - exclamou apontando para a lagoa.
O que se seguiu foi um espetáculo inimaginável. Exatamente ao meio dia, a ponta da lagoa que tocava o vulcão, comecou a mudar de cor, do branco espelhado para o verde esmeralda. Como se fosse um truque de ilusionismo, a onda verde continuou avançando em direcao à margem oposta da lagoa, onde nos encontravamos, até que após alguns poucos minutos, a laguna estava totalmente verde.
- Nao é magia nem tecnologia - gritou Herman sorrindo. - É um fenomeno que ocorre devido à posição do sol e aos minerais contidos nestas águas.
De volta ao veículo, sacudimos por mais tres horas pelas estradas de pedra e terra do altiplano boliviano, sempre com as montanhas nevadas nos observando imponentes, como gigantes adormecidos montando guarda no horizonte infinito. Avistei à nossa frente, nuvens grossas de fumaça branca que pareciam brotar do solo árido e pedregoso. Um desagradável cheiro de enxofre invadiu o ar.
- Atenção, todos ! - exclamou Herman apontando para uma das colunas de fumaça. - Estamos passando por uma área cheia de geisers de material vulcanico. Vou parar aqui para que voces observem os geisers, mas precisamos ir embora em no máximo 5 minutos. Esse cheiro de enxofre no ar que voces podem sentir, é na verdade uma combinação de gases perigosos. Mais de 5 minutos aqui e voces vao passar muito mal.
Caminhamos até uma das crateras esculpidas pela natureza, de onde uma imensa coluna de fumaça branco-acinzentada subia devagar em direção às nuvens. O cheiro de enxofre parecia cada vez mais embrulhar meu estomago. Dentro do imenso buraco, um material cinza e escuro borbulhava em meio a pequenas explosoes que lançavam jorros da lama cinzenta a tres ou quatro metros de distancia. Podia sentir pequenos tremores vindos do solo quente sob meus pés. Maravilhados pelo espetáculo, esquecemos completamente a recomendação feita por Herman sobre o limite de tempo de permanencia no local.
Olhei para o Jeep, agora estacionado a no minimo trezentos metros dalí. Herman havia subido sobre o capo do veiculo, talvez para compensar sua diminuta estatura e ter certeza de que seria visto, e pulava balancando os braços, sinalizando que deveriamos abandonar o local. Caminhar até o carro foi difícil. A cada passo, era possível sentir a falta de folego e arritmia cardiaca causadas pela altitude. Enquanto Herman dirigia habilmente para longe dali, tentei fechar os olhos e recuperar a respiração, refletindo sobre a paisagem de ficção cientifica que nos circundava. "Acho que isso é o mais proximo que alguém pode chegar de uma paisagem do planeta Marte. ", pensei. Fui interrompido por um grito da garota belga :
- Wow ! O que é aquilo ?
Nao pude acreditar no que meus olhos, irritados pela forte radiação solar da altitude do deserto, presenciavam. Ao final da precária estrada de pedra, uma enorme lagoa vermelha, cheia de grandes flamingos rosa, brilhava como um rubi. Herman logo interveio :
- Chegamos a Laguna Colorada. Esse é o habitat natural dos raros flamingos andinos. Essas águas possuem uma alga muito especial que é o alimento dos flamingos. Essa alga é que dá a cor vermelha e intensa à lagoa, e também aos flamingos.
Herman estacionou o 4X4 às margens da lagoa, ao lado de um barracão de cimento com aparencia de alojamento militar, que tinha quase todas as janelas quebradas. Trepou no teto do veículo, apressando-se em desamarrar as mochilas do bagageiro.
- Levem as mochilas para o quarto número seis - disse arremessando a primeira delas na direcao de Karl, que desabou ao chão depois de tentar equilibrar o peso sobre os braços.
- Fuck ! Fuck ! - gritava o alemão sacudindo a poeira das calças.
Levei minha mochila para o quarto, um comodo pequeno, com uma beliche e tres camas de ferro e pouquissimo espaço entre elas. Sobre as camas, nada mais que um pedaço de papelão e uma fatia de espuma que parecia estar ali para servir de colchão. Patrick e Lucien jogaram as mochilas na beliche. Karl, escolheu a cama ao lado da minha. A garota da Bélgica entrou no quarto :
- Ai ! Não acredito ! Eu não vou dormir aqui nessa porcaria de quarto - gritou respirando com dificuldade devido ao ar rarefeito.
- Voce pode dormir lá fora no Jeep com os pumas e gatos do deserto - respondeu Patrick, irônico.
- Vou dar uma volta às margens da lagoa para observar os flamingos. Alguém vem comigo ? - perguntei tentando dispersar o clima de briga.
Caminhamos até as margens da lagoa, uma gigantesca poça rasa de água vermelha, onde centenas de flamingos rosados de mais de um metro de altura dançavam um balé sincronizado em busca de alimento. A medida que a tarde caía, o calor do dia ia se dissipando, dando lugar a um frio incomodo. Tentei dizer algo sobre aquela paisagem à meus companheiros de viagem, mas o vento soprava com tamanha velocidade, assoviando tão alto, que era impossível manter qualquer tipo de comunicação. Então fiquei ali, sem palavras, diante do inquietante poder da natureza.
Voltamos ao refúgio. Mais tres Jeeps haviam chegado, e o pequeno local estava agora repleto de viajantes. Herman já preparara o jantar. Ajudamos a colocar os pratos na mesa improvisada em uma das salas da construção rústica. Herman logo trouxe para a mesa um caldeirão cheio de pequenas bolinhas amarelas. Comi um pouco do estranho cereal que tinha um delicioso gosto defumado. So depois fui tomar conhecimento de que havia comido quinoa, o super-cereal rico em proteínas cultivado pelos povos dos Andes há mais de 5000 anos, e que manteve de pé por séculos o numeroso exército Inca.
O sol já não mais iluminava as águas vermelhas da laguna colorada e os ultimos flamingos levantavam voo em direção ao horizonte quando decidimos que era hora de dormir. Estavamos a 4400 metros de altitude. Minha cabeça girava a cada respiração. Uma sensação de ressaca invadiu meu corpo. Lucien e a garota da Bélgica ja estavam deitadas, reclamando de fortes dores de cabeça. Patrick era o único que parecia estar bem.
- Acho que eu vou vomitar - disse Karl correndo para o banheiro.
Banheiro. Neste caso, um salão estreito sem janelas, com tres divisoes de um metro e meio separando vasos sanitarios mal cimentados e extremamente sujos, sem válvulas de descarga. Pias ou torneiras, outro luxo inexistente. Em um dos cantos do recinto, dois tambores de metal com água pela metade e uma pequena bacia boiando em cada um deles, davam aos hóspedes uma dica sobre como higienizar o vaso sanitário após o uso. Aparentemente nem todos entendiam, e o fedor era insuportável.
A noite dentro do meu saco de dormir foi longa. A altitude cobra um preço alto de principiantes acostumados às condiçoes fáceis da vida ao nível do mar. A cada hora, a temperatura indicada por meu termometro de bolso caía 4 graus. Acordei às tres da manhã com a sede de um camelo e o teto girando diante de meus olhos. Estendi a mão para fora da cama tentando alcançar minha garrafa de água mineral. Girei a tampa, abri a boca e esperei pelo jato que mataria minha sede. Tudo que consegui foi uma gota fina e gelada. Os dez graus negativos haviam congelado toda a água dentro da garrafa.
Laguna Colorada
Herman acordou a todos às 6:30 da manha. "Temos um longo caminho pela frente", exclamou bocejando. Colocamos as mochilas no teto do Jeep, que estava coberto por uma fina camada de gelo. Um grupo de llamas pastava tranquilo bem em frente ao veículo.
- Ai que bonitinhas ! - gritou a garota da Bélgica, enfiando-se no meio do grupo de llamas. - Como eu adoro llamas. Sao os animaizinhos mais fofos do mundo - completou chegando mais perto de um dos exemplares.
Os animais pareceram incomodados pela presença da estranha.
- Ai, deixa eu passar a mão em voce - insistiu a moça, agarrando a cabeça de um dos camelidos sulamericanos.
A llama pareceu irritar-se com a manobra. Emitia ruidos que se assemelhavam aos de um bebe incomodado. Puxou a cabeca com forca para livrar-se do abraço. A garota parecia não estar disposta a desistir. Agarrou novamente o pescoco do animal, passando a mão em sua cabeça como se fosse um cachorrinho de madame. Dessa vez, a llama realmente pareceu nervosa. Inclinou o pescoço para trás, colocando as orelhas longas e pontudas em uma posição reta, grudadas a cabeça.
- Sai daí agora ! - gritou Herman. - Ela vai...
O animal emitiu um som grave semelhante a uma tossida rouca, cuspindo um líquido verde e pegajoso que atingiu o pescoco da garota.
- ...cuspir - completou Herman.
E eu que sempre pensei que a história de que as llamas cuspiam era uma lenda. A comprovação do contrário não poderia vir de forma mais divertida. E fedorenta. A garota da Bélgica, devido a substancia verde agarrada a seu pescoco, fedia muito mais que o banheiro do abrigo.
Muitos minutos depois, após ouvir nossa amiga Belga gritar repetidamente "Animal dos infernos. Odeio llamas" enquanto esfregava seu pescoço com uma escova, pudemos finalmente entrar no Jeep e seguir viagem.
Montanhas e grandes dunas de areia formavam a imagem borrada pela velocidade que passeava pela janela do Jeep. Cruzamos o deserto por algumas horas, calados, involtos em nossos próprios pensamentos. Olhei para um grão de areia, que havia grudado no vidro da janela. Por um instante, eu me senti aquele grão. Um mísero grão de areia diante da imensidão das paisagens do mundo e de todas as coisas que eu nunca imaginei que existissem, e mais, de todas as coisas que eu nunca saberei que existem. Me dei conta de minha própria ignorancia e limitação diante daquele grão de areia, que havia estado ali por milhoes de anos antes de mim. E que estaria ali muitos milhares de anos depois que eu morresse. Percebi ser apenas mais um dos insignificantes visitantes que aquelas areias do tempo testemunhariam.
Paramos em uma região cercada de montanhas e formada por vastas planícies de areia. Decorando as dunas, imensos pedacos de rocha, que pareciam haver sido ali colocadas por hábeis mãos montando um imenso jardim Zen japones. As pedras menores deveriam ter pelo menos quatro ou cinco metros de altura. Uma sensação de Deja Vu tomou instantaneamente conta de meu cérebro. Onde é que eu havia visto essas paisagens antes ?
- Salvador Dali - gritei assim que um dos quadros de meu pintor favorito me veio a mente.
- Isso mesmo - respondeu Herman. - Essa parte do deserto é chamada de Deserto de Dalí. Dizem que Dali visitou este lugar e que muitas das paisagens de seus quadros vem daqui.
Duvidei um pouco daquela informação, sobre a visita de Dalí a Bolivia. Talvez fosse apenas mais uma das histórias inventadas pela indústria turistica da região. Talvez não. A verdade é que aquelas rochas gigantes alí, no meio do nada, pareciam uma versão imensa e escultural de uma pintura de Dalí. Era como mergulhar na tinta de um de seus quadros e estar por alguns instantes imerso na mente delirante do pintor.
- Vamos - gritou Herman. - Ainda hoje temos que chegar ao hotel de sal !
Hotel de sal. Confesso que quando ouvi aquela frase, pensei tratar-se de uma força de expressão. Percebi que não poderia estar mais enganado assim que chegamos ao prédio em questão. Um hotel grande, talvez com mais de 30 quartos, feito inteiramente de blocos de sal. Olhei para o chão ao entrar. Não havia piso de ceramica ou madeira. Apenas sal branco e fino, como se alguém houvesse derramado dezenas de sacos de sal de cozinha no chão. As paredes brilhavam devido a luz que se refletia nos pequenos cristais de sal que formavam os tijolos.
- Uau ! Que lugar incrível - disse Patrick assim que entramos no salão principal, onde algumas pessoas jogavam cartas em uma mesa feita de sal.
- Aqui voces podem finalmente tomar um banho de água quente e usar banheiros limpos - respondeu Herman apontando para os banheiros.
Trepei no teto do Jeep e desamarrei as mochilas. Fui em direcao ao quarto descansar um pouco. Os efeitos da altura pareciam estar diminuindo. Sentia apenas uma leve tontura. Entrei, deixei a mochila no chão, ao lado da cama que para minha surpresa tambem era feita de sal. Na verdade, a única coisa naquele quarto que não era feita do material branco brilhante era o colchão. Herman logo entrou, convidando-me para o jantar.
- Ok pessoal. Hoje preparei para voces um prato especial. - disse Herman orgulhoso, e colocou um grande pedaço de carne no prato de cada um.
- O que é isso ? - perguntou Karl ao cortar uma grande fatia da carne vermelha e suculenta, e leva-la a boca.
- Bife de llama - respondeu Herman sorrindo.
A garota da Bélgica ficou vermelha. Pareceu engasgar. Imediatamente cuspiu o pedaço que mastigava com gosto já há alguns segundos.
- Ai ! Que horror ! Llama ! Bicho dos infernos ! - Gritou batendo na mesa de sal.
- Pense bem. É uma boa chance para voce se vingar - respondi.
- Sem graça.
Essas foram as últimas palavras que ouvi da garota da Bélgica durante o jantar.
- Bem pessoal, precisamos dormir. Amanhã sairemos daqui as cinco da manhã - disse Herman olhando para o grupo e garfando o último pedaço de llama da bandeja.
Acordei as quatro e meia da manhã. Minha cama cheia de sal. Minhas roupas cheias de sal. Meus sapatos cheios de sal. Eu nunca tinha visto tanto sal na vida. Todos já estavam acordados, esperando-me fora do quarto para o café da manhã. Todos menos Herman.
- Ué. Cade o nosso guia ? - perguntei curioso.
- Não sei não - respondeu Patrick. - Já procuramos ele no quarto e por todo o hotel e não encontramos.
- Ontem a noite eu vi ele bebendo vinho com as duas empregadas aqui do hotel. Vai ver se deu bem - disse Karl gargalhando e ajeitando os óculos grossos.
Resolvemos tomar café da manhã e esperar ao lado do Jeep. Uma longa espera. Apenas tres horas e meia depois, as 9:00 da manhã, a figura agora sombria e de olhos fundos apareceu na porta do hotel. Passou pelo grupo sem um bom dia ou qualquer palavra. Entrou no Jeep e ligou o veículo. Todos se entreolharam um pouco confusos, um pouco assustados. Entrei no carro, e sentei no banco do passageiro, ao lado de Herman.
- Tu-tudo bem ? - perguntei receoso.
Herman não respondeu. Usava agora óculos escuros que nos impediam de ver seus olhos. Acelerou o veiculo. Todos se calaram.
- Salar de Uyuni - disse Herman, finalmente, apontando para a enorme mancha branca da qual nos aproximavamos rapidamente.
Em poucos minutos, o solo de areia foi substituído por uma enorme planície inteiramente formada por sal, resultante de um lago que há milhares de anos havia secado, deixando como legado, apenas o sal de suas águas. Alguns minutos mais, e tudo que se podia ver era o céu azul e o solo branco formado por placas hexagonais de sal. Nenhuma montanha, nenhum sinal de vida, nada. Era como se um desenhista universal houvesse subitamente apagado com uma borracha qualquer paisagem. Eramos seis pessoas a bordo de um Jeep, navegando em um cenário em branco. Coloquei a cabeça para fora da janela do carro, senti o vento batendo forte em meu rosto. Olhei para todas as direcoes, e tudo que havia era o nada. Estavamos cruzando o infinito.
- Podemos parar para tirar uma foto ? - perguntou Patrick.
Herman não disse uma palavra. Apenas diminuiu a velocidade do Jeep até parar completamente. Saímos, e nos afastamos um pouco para tirar algumas fotos.
- Eu estou um pouco preocupada com nosso guia, ele está estranho demais - disse Lucien para o grupo.
- Sim, tem alguma coisa muito errada com ele hoje - respondi.
- Ai meu deus ! - gritou a garota da Bélgica apontando para o veículo estacionado.
A visão que tivemos naquele momento foi mais surreal que o próprio deserto. Herman se encontrava deitado, embaixo do Jeep, com a ponta do nariz encostada no solo de sal.
- Nossa ! O que é que ele tá fazendo alí embaixo ? - perguntou Karl com um ar inocente.
Corremos até o veículo. Abaixei-me e gritei :
- Herman, voce está bem ?
Herman, novamente, não disse uma palavra. Apenas saiu debaixo do 4X4 e assumiu novamente a direção. Patrick mostrou-se um pouco nervoso :
- O que esta acontecendo com voce afinal ?
- Estoy bien, amigo. Todo bien - respondeu Herman com a voz de um daqueles Zumbis de filme de terror mal acabado.
Tomamos novamente nossos lugares dentro do veículo. Herman logo acelerou. Olhei para o velocimetro, que marcava 90 Km por hora. A paisagem totalmente branca do salar, me dava a impressão de que estavamos parados. Um movimento de Herman subitamente chamou minha atencao. Enquanto dirigia, sua cabeça parecia, por varias vezes, inclinar-se para frente, como se por alguns segundos estivesse dormindo. Achei que poderia estar imaginando coisas. Tentei focar meus pensamentos na paisagem. Novamente, Herman inclinou a cabeça para frente, parecendo perder o controle do Jeep por alguns segundos para logo após despertar e endireitar o veículo. Agora eu tinha certeza. Pensei nas consequencias de um eventual acidente em pleno deserto. Olhei para trás, Patrick fez um sinal afirmativo com a cabeça, dizendo baixinho : "Eu também vi".
A clima de tensão tomou conta do grupo. Não sabiamos o que fazer. Nosso motorista parecia estar dormindo ao volante, enquanto cruzavamos o maior deserto de sal do mundo a quase cem quilometros por hora. Não tivemos muito tempo para pensar. Alguns minutos mais, e Herman literalmente dormiu, largando por alguns instantes o volante do Jeep, que primeiro seguiu em linha reta como se algum fantasma o pilotasse, depois girou bruscamente para a direita, descontrolado. Todos no carro gritaram em panico. Herman despertou, segurou a direção, e pisou com força no freio. Um estalo forte pareceu vir da roda traseira esquerda do carro, seguido de uma nuvem de poeira branca que cobriu o Jeep e demorou alguns segundos para dispersar-se após o veiculo parar completamente.
- O que é isso ! - gritou Lucien saindo rapidamente.
Em segundos estavamos todos fora do carro. Herman continuava dentro, limitando-se a dizer : "Vamos, vamos. Temos que seguir viagem".
Olhei para a roda traseira e percebi que algo estava errado. Comparei com a roda dianteira e percebi que esta tinha seis parafusos. Olhei novamente para a roda de trás, e percebi que apenas um parafuso a segurava.
- Voce viu isso ? - disse eu a Patrick.
- O que a gente faz ? Esse cara deve estar completamente bebado ou drogado. E agora ? - respondeu ele desesperado.
- Eu acho que um de voces dois tem que dirigir - disse Lucien. - Eu é que não entro mais nesse carro com esse louco dirigindo.
Todos concordaram. Fomos até o Jeep. Herman nos esperava com o veículo ligado, pronto para partir. Patrick resolveu falar :
- Herman, voce está com algum problema e nós estamos muito assustados. O melhor a fazer é voce sentar no banco de passageiros e deixar um de nós dirigir. Voce nos indica o caminho.
- No. No. Amigos. No Hay problema. No hay problema - dizia ele lentamente, aparentando estar anestesiado.
- Bem, nós decidimos que isto está perigoso demais. Voce vai ter que nos deixar dirigir. Queremos chegar vivos e voce está dormindo no volante - gritou Lucien impaciente.
- No. Vamos. No hay problema - insistia Herman, balbuciando as palavras com dificuldade.
Vi outro Jeep aproximando-se ao longe. Tirei a camiseta e agitei-a no ar, correndo em direcao ao veículo em movimento. O motorista viu meu sinal, e acendeu os farois, mudando sua trajetória em direcao a nosso Jeep estacionado.
- Graças a Deus - exclamou a garota da Bélgica.
- O que aconteceu ? - perguntou o motorista ao descer do carro, que levava cinco turistas no banco de trás.
Explicamos a situação. O guia disse conhecer Herman.
- Voce pode pedir a ele que deixe um de nós dirigir ? Não podemos seguir com ele dirigindo - suplicou Lucien.
- Vou ver o que posso fazer - disse o sujeito indo em direcao a Herman. Abracou-o pelo pescoco e comecou a arrasta-lo para longe de nós, conversando no que parecia ser o idioma Quechua, falado há milhares de anos pelo povo Inca. Logo, colocou Herman no banco de passageiros de nosso Jeep e disse :
- OK. escutem bem. Vou na frente com meu Jeep e um de voces assume a direção. Sigam me até sairmos do salar. Depois disso, é só seguir a estrada por alguns quilometros e chegaremos a cidade de Uyuni.
- Parece que temos um problema com a roda traseira do Jeep - disse eu preocupado.
- Vou dar uma olhada, respondeu o sujeito prestativo, depois foi até a traseira do veículo. Agachou-se. Colocou as maos na roda, e fez uma expressao de quem viu uma coisa muito feia.
- Esta roda perdeu 5 dos seis parafusos. Voces tiveram muita sorte. Mais um pouquinho, e a roda cairia. Voces me seguem até aquela pequena ilha no meio do salar. Alí tentamos consertar a roda para que voces sigam viagem.
Todos entraram no carro, calados. Patrick assumiu a direção. Herman protestava : "Estoy bien. Amigos". "Quero dirigir". Ninguem respondeu. Minutos depois, Herman dormia e roncava, com a cabeça apoiada no encosto do banco.
Motorista boliviano dormindo em servico
Turistas dirigindo
Seguimos o outro Jeep até uma pequena ilha de areia, coberta por uma vegetação rasteira e uma enorme variedade de cactus gigantes, alguns com mais de 10 metros de altura. Patrick estacionou o veículo ao lado de outros tres Jeeps que estavam ali para visitar a ilha.
- Agora, voces podem dar uma volta na ilha, olhar os cactus gigantes. Eu vou dar um jeito nessa roda. Depois poderemos seguir até a cidade de Uyuni.
Voltamos uma hora depois. Herman ainda dormia no banco de passageiros. Olhei a roda do Jeep, que agora contava com tres parafusos e parecia presa à estrutura do veiculo por um cabo de borracha que fora antes usado para prender as mochilas ao teto do carro.
- Pronto. Voces estão perto de chegar vivos ao final da aventura - disse o guia sorrindo, com as mãos sujas de graxa.
- Agora é a sua vez - disse patrick arremessando as chaves do Jeep em minha direção.
Liguei o veiculo, e percebi como era velho. Tudo, do painel aos assentos, parecia chacoalhar a cada vez que eu pisava no acelerador. Seguimos o Jeep do simpático guia que acompanhava o outro grupo de turistas, até chegar a pacata cidade de Uyuni. Finalmente, a aventura havia terminado. Estavamos são e salvos. Tiramos todas as coisas do carro. Herman assumiu a direção, ligou o Jeep e acenou em despedida. Dobrou a primeira esquina, e sumiu para nunca mais.
Roda amarrada para nao cair