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Descobrindo a América BLOG ! Viajando de Mochila pela America do Sul



    Colonia, Uruguay - Abril de 2005  

10. As luzes do horizonte


Deixei cair minha mochila na grama da praça ao ver a lua desenhando seu reflexo prateado nas águas míticas do Rio de la Plata. Eram tres da manhã e a cidade de Colonia, a última que eu visitaria no Uruguay, estava completamente deserta. Haviamos caminhado até ali, sob a fraca luz amarela dos postes em estilo colonial portugues cujo reflexo nos paralelepipedos fazia com que me sentisse no século dezenove , acompanhados apenas por uns poucos vira-latas sem dono que generosamente ofereciam seu sorriso canino e o olhar triste que somente os vira-latas sem dono tem.

    - É tão estranho... - disse sentando na grama molhada, apoiando-me em minha mochila.

    - O que ? - perguntou Javier sentando-se ao meu lado.

    - A maneira como a vida da gente muda sem pedir licença. Há alguns meses eu tinha um emprego, um automóvel, uma guitarra, uma rotina diária que parecia meu destino eterno. Hoje, eu estou aqui, na fronteira do Uruguay com a Argentina, alguns milhares de quilometros longe de casa e tudo que eu tenho cabe dentro dessa mochila.

    - É meu amigo... Estranho e maravilhoso como a mudança é a unica constante da vida. Como tudo muda o tempo todo, a cada instante. Uma vez eu li que ao olhar o mar, devemos nos dar conta de que nunca é o mesmo mar. Não existem duas ondas iguais. Até mesmo o nosso corpo, aparentemente o mesmo de um dia para o outro, se modifica a cada segundo, perdendo milhares de células velhas a cada hora e substituindo-as por novas. Talvez após um ano já seja um novo corpo, mas nós somos teimosos e insistimos em dizer que somos os mesmos. Insistimos em acreditar na ilusão que criamos para negar que tudo que começa acaba, incluindo nossas vidas.



- Talvez assim seja mais simples viver - respondi notando as luzes brilhantes no horizonte do rio.

    - Talvez. Ou talvez gostemos de complicar as coisas. Talvez o simples seria apenas aceitar a mágica verdade do instante. Que tudo que existe, existe apenas agora. Não há dois dias iguais na vida. Nem nada no mundo que é igual após um dia mais de vida.

    - Voce consegue ver aquelas luzes no horizonte do rio ? - perguntei forçando a vista, tentando distinguir formas.

    - Sim - respondeu Javier acendendo um cigarro. - Aquelas são as luzes da nossa próxima grande mudança. São as luzes de Buenos Aires, na outra margem do rio. Ali, minha viagem pela América do Sul termina e eu volto pra casa e a sua viagem começa de verdade. A partir dali, voce estará viajando sozinho por um país estranho.

    Um misto de medo e curiosidade invadiu meus pensamentos, temperado pela fumaça branca e fedorenta do marlboro que iluminava a noite nas mãos de Javier. Ao longe, pude avistar mais um mochileiro que chegava caminhando à praça da cidade.

    - Hey, voce tem um cigarro ? - perguntou o tipo de cabelos arrepiados e piercing na sombrancelha, sentando-se a nosso lado.

    - Claro - respondeu Javier passando-lhe um cigarro. - Voce chega de onde ?

    - De Florianópolis, há muitas horas de onibus daqui. Vou a Buenos Aires, mas a próxima balsa que cruza o rio só sai às 2:00 da manhã de amanhã. Tenho que passar a noite aqui, mas a essa hora da noite esta cidade fica deserta e é dificil achar um albergue pra ficar. Estou pensando em esperar aqui até amanhecer.

    - Junte-se ao clube - disse Javier estendendo a mão ao sujeito e fazendo as apresentações.

    - Meu nome é Miguel, de Bariloche na Argentina - respondeu ele já quase na metade do cigarro.


Rua de Colonia



Ainda que eu Já estivesse na estrada há algum tempo, esse clima de amizade instantanea que existe no mundo mochileiro ainda me fascinava. Caminhos que se cruzam por algumas horas, cidades, museus ou apenas por alguns minutos enquanto se espera o proximo trem são uma constante quando se viaja de mochila.

    A noite ficava mais fria à medida que a madrugada caia. Tirei meu saco de dormir da mochila e coloquei-o sobre a grama. Javier e Miguel fizeram o mesmo. Apoiei a cabeca sobre a mochila e fiquei ali olhando para as luzes de Buenos Aires ao longe, pensando no que Javier havia me dito. Em alguns dias estaria viajando sozinho novamente, em direcao ao fim do mundo. O cheiro da grama molhada que invadia minhas narinas me fez lembrar dos finais de tarde que eu passava correndo na pista de cooper do parque perto de casa. Aos poucos, as luzes foram se apagando. Ou talvez eu é que tenha adormecido.

    Despertei com os incomodos raios de sol da manhã e os chutinhos de um guarda civil municipal."Hey muchachos, acordem. Voces nao podem dormir aqui não". Demorei um pouco para perceber o que tinha acontecido. Tinhamos pegado no sono em plena praça principal da cidade. Acordei Javier e Miguel. Deixamos as coisas nos armários de guarda volumes do albergue mais próximo e saimos para explorar a cidade.

    Colonia foi fundadada por brasileiros quando, a mando de Dom Pedro, o governador do Rio de Janeiro estabeleceu um entreposto comercial bem em frente a Buenos Aires afim de atrapalhar o dominio espanhol na região. Os espanhóis contra atacaram com várias invasões armadas à cidade, que passou das mãos dos portugueses às dos espanhóis e vice-versa várias vezes. Finalmente, com a criação de Montevideo e um acordo entre portugueses e espanhóis, a cidade passou definitivamente às mãos dos uruguaios.


Rio de la Prata



Caminhando pelas ruínas do centro histórico, fui parar bem em frente ao grande farol marítimo centenário que aponta para o imenso rio que separa o Uruguay da Argentina. Os faróis marítimos sempre me fascinaram. Gigantes solitários apontando para o mar, assoviando a cada lufada de vento.

    - Ihhhh ! Melhor a gente se separar - disse Javier ao ver que eu ficaria algum tempo ali ao lado daquele farol. - Esse daí quando se põe a admirar esse tipo de paisagem, fica parado feito bobo por horas.

    Combinamos que o bar em forma de torre, em frente à praça principal, seria nosso ponto de encontro ao final do dia. Javier e Miguel foram em direção aos museus. Fiquei mais alguns minutos ao lado do farol, observando as nuvens que me observavam lá de cima, voando sem pressa como pedaços de algodão ao vento. Depois, resolvi caminhar pelas vielas estreitas da cidade, me perdendo no tempo pelas ruas de pedra.

    O sol já tingia as casas históricas de laranja e amarelo quando cheguei ao ponto de encontro onde Javier e Miguel me esperavam no final da tarde. Sob o crepúsculo, eu podia ver casais de namorados que bebiam mate abraçados e os bons amigos que sentados na calçada abriam mais uma cerveja me fizeram sentir saudades dos amigos que deixei no Brasil. Muitos turistas passeavam de bicicleta pela avenida costaneira, esperando pelo momento em que o sol beijaria o rio, dando início a mais uma noite em um espetáculo vermelho-alaranjado.

      - Pessoal, eu já volto. Tenho que buscar uma coisa no albergue - disse Miguel levantando-se.

    - Voce vai perder o por do sol !

    - Não não. Volto rápido - disse saindo apressado.

    - Boa gente esse argentino - comentou Javier mais uma vez acendendo um cigarro.


Farol de Colonia



Em um par de minutos, o sol já nao era mais visível e as primeiras estrelas já começavam a brilhar no céu de Colonia. Ficamos ali às margens do rio por mais de duas horas, até que a lua novamente desenhasse seu contorno nas águas calmas à nossa frente. Miguel ainda não havia retornado. Decidimos ir até o albergue para saber o que poderia haver acontecido. Caminhamos devagar e ao chegar ao guarda volumes do albergue, notamos que a mochila de Miguel não mais estava lá.

    - Que estranho - disse Javier. - Foi embora sem se despedir.

    - Bem, melhor pegar as nossas coisas e ir até o porto. Esperamos a balsa para Buenos aires lá.

    Javier concordou, e foi buscar sua mochila. Depois foi até a sala onde ficam os armários para que os viajantes guardem os pertences valiosos.

    - Mierda !!!!!! - gritou ao abrir seu locker.

    Corri até a sala para ver o que havia acontecido. Ao entrar, percebi que o cadeado que trancava meu armário havia sido cortado. Tentei recordar se havia deixado algo valioso dentro do armário. Suspirei aliviado ao perceber que havia levado minha camera fotográfica e passaporte comigo o tempo todo. Javier nao teve a mesma sorte.

    - O cara nos roubou e foi embora. Minha camera, meu passaporte, tudo.   

    Corremos até o porto, com a esperança de encontrar Miguel. Em vão. Apenas alguns turistas esperavam a próxima balsa para Buenos Aires. Às duas da manhã, já dentro do barco, tive o impulso de escutar uma música antiga, ao ver as ondas pela janela da embarcação. Procurei meu discman e só então percebi que o havia deixado no armário. Tambem havia sido roubado. Por um momento, pensei em ficar triste, mas logo fiquei feliz. Poderia haver sido pior. A viagem continuaria sem música, ao som da vida. As luzes de Buenos Aires estavam cada vez mais perto.



Crepusculo em Colonia

 

   [ Marcus em 6/10/2005]

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Comentários

Muito massa a tua viagem. Lamento pelo roubo. Mas, pelo menos, que sirva de lição pra galera mochileira ficar esperta! Continue escrevendo sobre a viagem. EStá muito legal!

[ Enviado por Johelton (São Luís-MA) em 23/10/2005 ]


Marcus, peguei carona na sua mochila hoje e como pretendo partir em viagem dia 01/01/06 de carro saindo de Campinas/Sp, passando por Chui, Buenos Aires, Patagonia Argentina, atravessando a Cordilheira até o Chile, suas experiências me ajudaram muito.
Boa viajem e continuarei grudado na sua mochila sem aumentar o peso que carrega.
Boas experiências e muita gente boa pelo seu caminho.

[ Enviado por adilson em 17/10/2005 ]


Oie! A cada dia tudo está melhor!
Super beijo

[ Enviado por Di em 11/10/2005 ]


Fala aí Marcus ! Cara, te "conheci" faz uns 10 dias, assim que por acaso. A maneira como vc transmite essa sua experiencia tá sendo muito importante pra mim, pois me faz parar tudo e pensar... Um grande abraço !

[ Enviado por Hugo Fernando em 10/10/2005 ]


Sem comentários...

[ Enviado por Renato em 9/10/2005 ]


Marcus, seus textos estao cada vez melhores. Eu realmente vejo potencial para a publicacao de um livro. O conteudo é muito melhor que muitos best sellers atuais. Espero pelo proximo.

[ Enviado por Ricardo em 6/10/2005 ]


Ich vermisse dich auch sehr, aber ich bin nicht traurig, weil ich weiss, dass du immer bei mir bist. Ich denke an dich und kann berichten, dass ich heute einen Schmetterling gesehen habe!

[ Enviado por Dianne em 6/10/2005 ]



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