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Descobrindo a América BLOG ! Viajando de Mochila pela America do Sul



    Montevideo, Uruguay - 20 de Abril de 2005  

9. Música Urbana

Fiquei dois minutos inteiros parado, com a mochila nas costas, em frente à gigantesca bandeira do Uruguay que tremulava tranquila hasteada em um mastro que devia ter uns dez metros de altura, na praça em frente ao terminal central de ônibus da capital uruguaia.

    - Entao é isso que se sente ao visitar a capital de um país - disse em voz baixa, quase inaudível.

    - Você vai ficar o dia inteiro aí parado olhando a bandeira ou ainda pretende encontrar o albergue ? - resmungou Javier, meu companheiro de viagem espanhol, impaciente.

    Aproveitamos a sombra de uma das árvores da praça para nos esconder do sol das duas da tarde enquanto olhávamos o mapa de Montevideo. O Albergue ficava à dois quilômetros da estação, em uma das ruas paralelas à avenida 18 de julio - a principal da cidade. Sugeri que caminhássemos. Estava ansioso para observar a vida cotidiana da cidade. Javier aceitou prontamente.

    Comecei a caminhar devagar em direção à avenida, observando as pessoas de gravata que relaxavam antes de voltar ao trabalho nas mesas colocadas na calçada em frente à um restaurante. Nossa passagem, com mochilas nas costas, causava reações diversas. Uns olhavam com curiosidade, outros com indiferença, muitos torciam o nariz, como se estivessem vendo a coisa mais estranha do mundo. Esse é o problema das cidades grandes. Uma criança, com os pés descalços em contato com o asfalto, pedindo esmola em um semáforo é um cena encarada com naturalidade. Duas pessoas caminhando de mochila, não. Javier abriu um sorriso ao perceber que os olhares me incomodavam. Olhou para mim com uma expressão pensativa e disse :

    - Você me faz recordar de como eu era quando comecei a viajar. Sempre preocupado com os olhares, com o que os outros estavam pensando. Até que eu percebi que, se é dificil controlar nossos próprios pensamentos, controlar o que as outras pessoas pensam é impossível. Para viajar assim, de mochila nas costas, é necessário opinião. Todos tem suas próprias razões. É preciso acreditar nas suas, sem se importar com o julgamento alheio. É preciso ter espírito inabalável. No fundo é como na vida. No fundo a vida é uma grande viagem.

    Chegamos ao albergue alguns minutos depois. Um casarão antigo recém pintado, em uma rua com uma árvore alta e frondosa a cada cinco metros, formando um corredor de árvores a perder de vista. Empurrei a porta de madeira pesada, que parecia ter no minimo sessenta anos. A impressão ao entrar era de decadência, um lugar que já teria sido um ponto de encontro de viajantes mochileiros, mas cujos dias de glória haviam passado há muito tempo. A recepção ficava em um salão amplo, cuja harmonia era quebrada por uma longa escada enferrujada em forma de caracol que levava ao piso superior onde ficavam os quartos. Tudo parecia velho e mofado, mas o cartaz na parede que dizia : "3 dólares por noite com café da manha incluído", justificava a estadia.


    - Com licensa, queríamos um quarto - falei interrompendo a leitura da garota que quase dormia com um jornal na mão, apoiada no balcão da recepção.

    - Tem que esperar a dona chegar - respondeu ela bocejando.

    Colocamos as mochilas no chão e sentamos nas cadeiras mancas que preenchiam o salão. Esperamos por meia hora.

    - Desculpe, mas voce sabe se ela demora pra chegar ? É que a gente já está esperando faz meia hora - perguntei tentando nao soar impaciente, talvez sem muito sucesso.

    - Não sei. Disse que foi comprar cigarros e já voltava.

    Pensei imediatamente na piada da esposa, que espera o marido voltar há uns cinco anos, depois de ouvir essa frase. Olhei para a escada enferrrujada e perguntei :

    - Onde são os banheiros ? No andar de cima ?

    - São sim. No andar de cima. Mas estão interditados. Estamos sem água há dois dias.

    Nos entreolhamos por um minuto em silencio, talvez tentando decidir se ríamos ou chorávamos. Resolvemos deixar as coisas em um dos quartos e sair para conhecer a cidade. Apesar das condições precárias do albergue, estávamos em uma área bem localizada, perto da Ciudad Vieja, o centro histórico de Montevideo. Caminhamos pela avenida principal até a praça da independencia, onde estão localizados vários dos edifícios do governo uruguaio.

    No meio da praça, uma gigantesca estátua do general Artigas - libertador do Uruguay - montado a cavalo, indicava o lugar onde os restos mortais do herói da independência estão guardados. Perto dalí, era possível avistar o majestoso teatro Solís - nomeado assim em homenagem ao descobridor do Uruguay - com suas colunas e imponência clássicas. Foi a primeira vez que percebi o paradoxo das homenagens nas capitais sul americanas, sempre com um monumento homenageando o conquistador que descobriu o país, e um outro referente ao homem que o livrou dos conquistadores que o descobriram.


Plaza de la Independencia


    - Voce está com fome ? - perguntei ao perceber que o ruído que ouvíra pensando ser o ronco de uma moto saindo em disparada, era na verdade meu estomago.

    - Estou sim. Alí tem um trailer de cachorro-quente. Vamos experimentar ?

    Balancei a cabeça afirmativamente, aumentando o ritmo da passada em direção ao trailer. Ao chegar, nos deparamos com o máximo da sofisticação em barracas de cachorro quente. Um trailer com cozinha completa e uma vitrine imensa de ingredientes para incrementar o sanduiche. Três simpáticas atendentes uniformizadas nos deram as boas vindas utilizando aquelas frases decoradas que se costuma ouvir em redes de lanchonetes multinacionais. Eramos os únicos clientes no balcão. Pedi um cachorro-quente e um refrigerante.

    - O que você quer colocar no seu cachorro quente ? - perguntou a atendente apontando para a vitrine de ingredientes.

    Olhei para a cara da atendente e para a vitrine de ingredientes. Provavelmente não saberia o nome de metade dos condimentos em português, quanto mais em espanhol. Resolvi comecar pelo básico.

    - Ketchup e mayonese.

    - Ketchup e que ? - perguntou ela como se eu tivesse dito um absurdo.

    - Mayonese.

    - Isso a gente não tem !

    - Como não ? E o que é esse pote ai ? - disse apontando para o pote de Hellman´s.

    - Ah ! Maxonessa....

    O sotaque dos países do cone sul é diferente de tudo que eu já tinha ouvido, talvez o mais bonito sotaque da língua espanhola. Yo, transforma-se em Xo. Mayonesa, transforma-se em maxonesa. Javier se divertia com os meus problemas linguísticos como se estivesse assistindo a uma peça comica.

    Já estavamos na metade do segundo sanduíche quando notei a figura que se aproximou do balcão e parou ao lado de Javier. Vestia calça social e um smoking elegante. Pareceria só mais um cliente em busca de um lanche rápido, não fosse pelo cabelo bagunçado, estilo Albert Eistein e pelos óculos escuros que usava. Pareciam os óculos de brinquedo que vinham junto com os doces tipo maria-mole que eu comia quanto era criança, com hastes brancas de plástico e lentes de acrílico verde claro. Aproximou-se mais de Javier, que o observava da forma que se observa alguém que voce desconfia ser louco mas não tem lá tanta certeza. Nesse momento, o estranho aproximou o rosto do sanduíche que Javier segurava enquanto apertava o pote de ketchup que parecia entupido. Em seguida inclinou-se para trás, quase encostando a ponta do nariz na bochecha de Javier, ajeitou os óculos de brinquedo e disse bem baixinho, quase sussurando :

    - Voce gosta de...

    Fez uma pausa, como que para tomar folego. Ajeitou novamente os óculos e gritou com toda a força que tinha nos pulmões :

    - KETCHUP !!!!!!!!!

    Javier deu um pulo, assustado. Apertou o pote de ketchup com tanta força, que a tampa saltou para fora, derramando o condimento pelo lanche todo.

    - Não é muito ? - perguntou o sujeito olhando para o lanche e franzindo a testa.

    Javier se afastou olhando para o tipo da forma como se olha para alguém que voce tem certeza que é louco. As atendentes da lanchonete observavam tudo com um ar de tédio.

    - Não liga não. É o Albert - disse uma das garotas. - Ele acha que trabalha aqui. Louco, louco, coitado.

    Passeamos por mais algumas horas pelas ruas do centro histórico, respirando a cultura uruguaia e observando as pessoas voltando do trabalho para casa, gargalhadas adolescentes vindas das portas da escola, gente caminhando apressada pelas ruas, taxis buzinando e a dança colorida dos semáforos nas avenidas. Todos caminhavam com uma cuia de mate em uma mão e uma garrafa térmica com água quente na outra. O mate é parte integrante da cultura, e vai com cada uruguaio onde quer que ele vá.

    Voltamos ao albergue pela avenida 18 de Julio, olhando para os edificios com cara de início de século 20 e os veículos que gentilmente paravam sempre que um pedestre demonstrava intenção de atravessar a rua. A noite foi longa. Além dos banheiros interditados, o albergue parecia ser equipado com colchões que tinham a mesma idade dos edifícios do centro histórico.


Avenida 18 de Julio


    Acordei cedo, com a sensaçao de ter sido atropelado por um daqueles rolos compressores que amassam os personagens de desenho animado. Fechei novamente os olhos, pensando em dormir só mais cinco minutinhos, mas resisti. Queria conhecer o que faltava da cidade. O estádio centenário, sede da primeira copa do mundo, e o mercado municipal, onde um almoço com direito a filé de pescado uruguaio custa muito mais barato que um hamburguer do Mc Donalds. Com a lista de pontos turisticos visitada, estávamos livres para experimentar o que as cidades grandes tem de melhor : A vida noturna.

    El Pony Pisador. Um dos muitos bares no centro histórico onde é possível experimentar a cerveja uruguaia ouvindo um pouco da musica local. Foi aqui , lá pelas tantas quando a lotacao do lugar já obrigava muitos dos que chegavam a ficar de pé, que tres casais se aproximaram da mesa em que estávamos.

    - Podemos sentar com voces ? - perguntaram com um sorriso tímido.

    Não tinhamos porque recusar o pedido. Estávamos sentados em uma mesa enorme, ocupando apenas duas das oito cadeiras, além disso parecia uma boa oportunidade para fazer amizade com os habitantes locais. "Claro que sim", respondi ajeitando as cadeiras para que sentassem. A cerveja uruguaia é amarga, forte demais para o meu gosto, mas a conversa estava boa e as horas passaram rápido. O vidro espelhado dos edifícios já refletia os primeiros raios de sol quando decidimos que a noite já durara o bastante. Todos se levantaram para despedir-se, assim que anunciamos que estávamos de saída.

    - Prazer em conhece-los - disse uma das garotas dando um beijo em meu rosto.

    Seu namorado se aproximou, estendeu a mão e disse :

    - Foi bom conhecer voces, espero que gostem de Montevideo - depois apertou minha mão e me lascou um beijo no rosto.

    Instintivamente, empurrei-o para longe, sem entender nada. Sua namorada olhava para minha cara, entendendo menos ainda.

    - O que foi ? - perguntou ela arregalando os olhos.

    - Não quero te decepcionar, mas seu namorado acaba de me dar um beijo. - respondi.

    Ela riu, como se tivesse escutado uma piada.

    - Aqui é assim mesmo que se cumprimenta - disse em tom de quem fala da coisa mais óbvia do mundo.

    Javier, como não podia deixar de ser, aproveitava para rir às minhas custas. A alegria durou pouco, já que logo seria sua vez de levar um beijo dos barbados.

    - Na Espanha se usa dois beijos nas despedidas - disse eu olhando com cara de sério para o casal que se aproximava de Javier.

    Caminhamos por alguns minutos em direcao ao albergue. Javier, emburrado por ter levado seis beijos dos marmanjos ao invés de tres, nao disse uma palavra até chegarmos à mesma barraca de sanduíches do dia anterior. Encostamos no balcao, ainda em silêncio. Albert já nos esperava, segurando uma lata de coca cola. Vestia exatamente a mesma roupa do nosso primeiro encontro, à exceção dos óculos escuros, dessa vez um par dos mais sofisticados, no melhor estilo clubber. Os cabelos longos e arrepiados se emaranhavam cada vez mais a cada lufada de vento.

    - Voces sabem qual o problema desse país ? - sussurrou ao aproximar-se ajeitando os óculos na ponta do nariz.

    Um casal se aproximou do balcão e pediu um cachorro quente. Albert virou-se em direção ao casal, aproximando-se deles por meio de pulinhos curtos. Tomou folego, abriu os braços.

    - REFRIGERANTE DIET !!! - gritou o mais alto que pode. - O PROBLEMA DESSE PAÍS É O REFRIGERANTE DIET !!!

    Com o susto, os dois perderam o equilibrio, quase caindo abraçados. Albert afastou-se, gritando a mesma frase por alguns minutos, até que sua voz foi abafada à distancia pela coleçao de ruídos que compõe a trilha sonora de toda metrópole.


Palacio Salvo, um dia o edificio mais alto da América


    Nos meus dias em Montevideo, enquanto meu paladar se acostumava ao gosto amargo do mate e meus ouvidos se habituavam ao doce sotaque uruguaio, eu descobri que, em uma viagem, cada cidade visitada é uma vida, cada parada uma história. Após duas semanas na capital às margens do rio da prata, eu já possuia minha praça preferida, meus amigos inesqueciveis, meu barzinho indispensável, minha lanchonete de fim de noite. Passava os dias estudando espanhol e as noites discutindo os assuntos importantes do mundo.

    - Quantas vidas tem um gato ?

    - Nove, claro.

    - Não, não. Tem sete.

    - Na Europa tem nove.

    - Mas estamos na América do Sul. Aqui os gatos tem menos vidas, mas as paisagens tem mais cores.

    - Será ? Mais cores que as cinco do arco-irís ?

    - Aqui o arco-irís tem sete cores...

    A noite sempre acabava no trailer de cachorro-quente, onde a cidade mostrava sua música e Albert destilava sua louca filosofia, sempre com o mesmo smoking impecável, cabelos emaranhados e um par de óculos escuros diferentes em plena madrugada.   

    - Sabe qual o problema desse país ? - sussurrou baixinho em minha direção na última noite que passei em Montevideo.

    - Refrigerante diet - respondi.

    - ISSO ! ISSO ! Até que enfim alguém nessa cidade que não está completamente louco - gritou Albert pulando eufórico.

    Caderno de lições de viagem. Anotação número 37. Quandos os loucos da cidade começarem a achar voce normal, é hora de seguir viagem.

    À medida que o onibus se afastava e os edifícios de Montevideo ficavam para trás, as imagens da paisagem urbana passeavam em minha mente. Lembrei dos meus amigos inesqueciveis, da minha praça preferida, do meu barzinho indispensável, da minha lanchonete de fim de noite. Me dei conta que nunca saberia que óculos Albert usaria aquela noite.

 

   [ Marcus em 13/7/2005]

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Comentários

Pô Cara cade a foto do Einsten?????
rsrsrsrs

[ Enviado por Ricardo Félix em 19/11/2007 ]


cara muito engracado! eheheheh DIET

[ Enviado por Roni Martins em 9/3/2006 ]


Olá moço, tudo bem?
Espero que esteja ótimo!
Bem apesar de ser minha estreia aqui nos comentários quero que saiba que eu estou acompanho você nessa viagem maravilhosa!
Que apesar de um pouco desatualizado...rsrsrs...o site está uma beleza, adoro ler suas narações com riquezas de detalhes dos lugares por onde passa!
É como eu já te disse escreve um livro que vai ficar show, com certeza eu comprarei o meu exemplar!
Ah e aroveita para publicar no livro essas fotos maravilhosas e os seus desenhos!
Fica com Deus
Beijos

[ Enviado por Vanessa Teles em 17/8/2005 ]


Até que enfim um outro texto seu !!!

Estava ansiosa para ler mais. Seu estilo de escrever é apaixonante. me sinto viajando com voce quando leio !

Beijos

[ Enviado por Drica em 16/7/2005 ]


putz, qta história hein.....qta loucura, cada vez q entro neste blog tenho vontade de fazer a mesma coisa q vc, sair de mochila por aí.....daki um tempo tomo coragem....beijos, boa viagem e paz sempre

[ Enviado por monajornalismo@yahoo.com.br em 16/7/2005 ]



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