8. Por do sol e notas de violoncelo
Essa, é só mais uma daquelas histórias romanticas. Nada de especial. Apenas o encontro ocasional de duas almas em busca de respostas, que por uma dessas brincadeiras do destino estavam no lugar certo, na hora certa. O tipo de história que não tem mais importancia nos dias de hoje, e que provavelmente será motivo de chacotas caso voce conte a seus amigos. Talvez nem mereça ser lida. Eu, que tenho essa mania de ser do contra, insisto em contá-la. Mas não sem antes enfatizar que é só mais uma daquelas histórias romanticas com final feliz previsível. Se ainda assim, por alguma razão, voce decidir continuar a leitura, não poderá dizer que não foi avisado.
Quando cheguei em Punta Del Este, o vento soprava com força o bafo de peixe que vinha do mar. Estava exausto. Tinhamos passado a noite em claro e perdido o onibus da manhã, de modo que tivemos que esperar na rodoviária pelo próximo veículo com dois assentos livres. O que só aconteceu depois das onze da noite. Daí que foi assim que chegamos de madrugada, depois das tres da manhã, ao cenário dessa história. Cenário pintado a mão, com lua cheia e tudo.
- O que aconteceu ? Voces tinham reserva pra ontem de manhã ! - disse o atendente do albergue assim que nos identificamos.
- É uma longa história, um fantasma no Chuy, uma noite sem dormir, um onibus que perdemos... - respondeu Javier, meu amigo espanhol com quem já visitava a terceira cidade.
- Bem, a diária só começa a partir das sete da manhã. Ainda faltam quatro horas. Se voces entrarem agora vão ter que pagar o dia. Por que voces não dão uma volta por aí e voltam depois das sete ? Podem deixar as mochilas nos lockers se quiserem.
Nos entreolhamos, primeiro com uma expressao de desanimo, logo substituída por um sorriso no rosto.
- Nunca se sabe ! - disse Javier para justificar o sorriso.
Soltei uma gargalhada dizendo : Claro, nunca se sabe. Isso era o que ele sempre dizia quando nos deparávamos com uma situação dificil. Ainda me lembro do dia em que perguntei de onde ele tirara essa frase, encarando tudo assim com tanto bom humor. E nunca vou me esquecer da resposta. De como fora despedido, devido a uma disputa política entre os chefões, de uma multinacional após trabalhar na empresa por 15 anos. Trinta e seis anos de idade e desempregado. Uma verdadeira tragédia pessoal. Estaria, segundo suas próprias palavras, choramingando a perda do emprego até hoje, nao fossem pelos dois aviões que atingiram as torres do prédio onde trabalhava em Nova York, semanas depois. Nunca se sabe.
E foi assim, caminhando de madrugada pela cidade mais bonita do Uruguai, às margens do Rio de La Plata, quando as primeiras horas da manhã davam ao céu um tom roxo azulado que ficava ainda mais bonito em contraste com o verde do rio, que eu vi aquela garota pela primeira vez. Sentada na mureta que separa a praia do passeio público, com um livro em uma mao e um chimarrão na outra. As vezes olhava para o livro, as vezes para a praia, como que hipnotizada pela cor do céu.
- Voce viu ? - falei em voz alta, por impulso.
- Viu o que ? - respondeu Javier, nao entendendo nada.
- Aquela garota por quem a gente acabou de passar.
- Não, que garota ?
- Aquela ! - disse eu virando para trás e apontando.
- O que tem ?
- Não sei. Aqui na praia a essa hora, mais de cinco e meia da manhã.
- E quem disse que praia tem hora ? Pra falar a verdade eu acho que ela olhou pra voce quando a gente passou. Voce devia ir ate lá.
- Voce nem viu a garota. Como pode achar que ela olhou pra mim ? - retruquei desconfiado.
- Vi sim. Estava me fazendo de desentendido.
- Tem certeza ?
- Absoluta. Se eu fosse voce falava com ela.
- Mas assim, do nada ? Sem falar espanhol direito ? O que eu falo ?
- Comece dizendo : Hola.
- E depois ?
- Depois improvisa - disse ele já entrando em uma cafeteria e pedindo um café. - Eu te espero aqui.
- Nao sei...
- Voce sempre impõe barreiras a voce mesmo assim ? A garota olhou pra voce. Eu vi claramente. O que mais voce quer. Se eu fosse voce já estaria lá.
- Nao sei...
- Nunca se sabe...
É. Nunca se sabe. Foi isso que eu pensei ao caminhar de volta pela calçada da praia. Isso e a conjugação dos verbos em espanhol que eu provavelmente usaria. Digo Hola e depois improviso. Como era mesmo a conjugação do verbo fazer ? Digo Hola e depois improviso. Ah, claro. Yo hago. Tu haces. Digo Hola e depois improviso. Me aproximei dela como quem apenas passeia pela praia. Parei. Olhei em seus olhos. Azuis. Lindos. Disse :
- Hola.
- Hola.
- Bom, na verdade agora é a parte onde eu deveria improvisar.
- Ah, tá. Bom, se precisar de um tempo pra pensar, tudo bem. Meu onibus só passa às 6:30 mesmo.
Ótimo. Pelo menos ela tinha bom humor. E cabelos castanho claros emoldurando um sorriso. Nesse momento, olhou para mim tombando a cabeca para o lado, cruzando as pernas em cima da mureta e fechando o livro que lia, como quem se prepara para uma conversa.
- O que voce está lendo ? - perguntei ao reconhecer a capa do livro.
- Cecilia Meireiles. Uma poetisa brasileira.
- Que coincidencia. Voce le em portugues ?
- Eu tento. Quer mate ? - disse me passando o chimarrão.
Peguei a mateadora e bebi um gole do chá. No começo senti um gosto de chá verde, que depois ficou um pouco amargo. Melhor do que eu esperava, na verdade. Fui interrompido por um onibus que dobrou a esquina sem diminuir a velocidade, como se fosse um carro de passeio. Quase tombando para a calçada.
- Tenho que ir. Meu onibus chegou. - disse já saltando da mureta e indo em direção ao onibus. - Tchau. A gente se ve ! - e entrou no onibus que saiu acelerando como se estivesse em uma corrida de arrancada.
- Espera. Seu chimarrão....
Caderno de lições de viagem. Anotação numero 32: Ao conhecer uma garota interessante, pergunte sempre, o mais rápido possível, duas coisas : seu nome e seu telefone.
Voltei à cafeteria devagar, tomando o pouquinho de mate que ainda restava no chimarrão. Encontrei Javier sentado, com uma xícara fumegante de café na mão e tres media lunas, uma espécie de croissant pequeno, sobre um prato que repousava em cima da mesa. Olhou para o copo de mate que eu segurava, uma cuia feita de cabaça onde se coloca a erva mate, e a seguir a água quente, e disse :
- Menos de dois dias de Uruguay e já conseguiu um souvenir...
- Bom, pelo menos ganhei um mate e nao um tapa.
- Isso é. E olha que era um risco que voce corria.
- Por que ? Voce mesmo disse que ela olhou quando a gente passou.
Javier abriu um sorriso, do tipo que alguém usa quando é pego mentindo. Ajeitou-se na cadeira, tomou um gole de café. O sorriso logo virou uma gargalhada.
- Eu ? Eu não. Nem vi a garota quando a gente passou - disse quase engasgando com o café.
La Mano
Abri os olhos ainda meio tonto, depois das seis horas de sono no colchão ruim do albergue. Javier roncava do outro lado do quarto, em uma das outras cinco beliches. Levantei rápido, antes que a tentação de dormir por mais algumas horas tomasse conta de mim. Punta Del Este é a cidade mais cara do Uruguay. Paisagem de cinema, com o mar de um lado da cidade e o Rio de La Plata do outro, preços europeus. Em uma viagem tão longa, não se pode passar muito tempo em cidades como essa. Ficar aqui por muito mais que o tempo previsto, significaria gastar mais que o previsto, e voltar antes para casa por falta de dinheiro.
Em quatro horas, pudemos caminhar pela cidade toda. O feriado de páscoa se aproximava, e as ruas ficavam a cada hora mais lotadas. Era fácil perceber, pelos carros importados e madames com casacos de pele, que estavamos no lugar escolhido pela classe media alta, do Uruguay e da Argentina, para passar temporadas de férias.
- Olha ! La Mano - disse eu ao apontar o famoso monumento do artista chileno Mario Irrazábal, uma mão gigantesca que emerge da areia da praia.
Javier não pareceu muito impressionado. Para mim, chegar ali era uma vitória. Agora, eu estava realmente viajando. Após ver aquele monumento tantas vezes em fotos e livros de viagem, eu podia finalmente tirar a minha própria foto.
A noite não demorou a chegar. Após o jantar, um sanduiche simples com suco que custou mais que uma noite de hospedagem, nos víamos vagando pela cidade à procura de um lugar para conhecer a vida noturna uruguaia. Bares não faltavam. BMWs e Mercedes estacionados na porta também não. Entramos em um dos bares à beira da praia. Gente chique, arrumada. Nós de calça jeans e botas para caminhada.
- Bem, vou treinar minha técnica de dizer oi e depois improvisar com as garotas uruguaias. - disse Javier se levantando da mesa e indo em direção à pista de dança. - Voce vem ?
- Não. Vou dar um tempo aqui na mesa. Minhas experiencias em tentar dançar com botas de trekking não foram das mais agradáveis.
Me ajeitei na cadeira e pedi uma cerveja para uma das garçonetes que passavam apressadas em frente à mesa onde estava. Enquanto pagava pela bebida, senti que alguém sentara ao meu lado.
- O seu amigo te abandonou aqui sozinho ?
Tentei disfarçar a expressão de surpresa. Não estou bem certo se consegui. Era ela. A garota da praia. Estava ainda mais bonita, vestida para matar.
- Pois é. Foi tentar a sorte com as garotas na pista de dança.
- E voce não foi por que ? - perguntou levantando a sombrancelha esquerda mais que a direita.
- É que eu estou meio sem assunto com elas. Estou viajando há um tempo e não tenho lido as revistas de fofoca. Nem sei quem está no castelo de Caras essa semana...
Minha fluencia no idioma espanhol estava melhorando. Já conseguia fazer as minhas piadinhas infames durante uma conversa. Ela riu, e jogou os cabelos para o lado, do jeito que as mulheres fazem quando querem que o mundo dos homens se mova em camera lenta. Depois olhou para mim com uma expressão séria, quase melancólica e disse :
- Metade das pessoas aqui vive de aparencias. Fingem ter mais do que tem. Esse não é o Uruguay real. Esse é o Uruguay da elite, uruguaia e argentina, que vem aqui fingir ser europeu.
Javier veio em direção à mesa e, ao ver o que acontecia, sorriu e voltou para a pista de dança, não sem antes fazer seu sinal de "nunca se sabe". Conversamos por quase meia hora. Pedimos um vinho. "O que voce faz ?", perguntei. Estudava música e tocava violoncelo em uma orquestra. Já havia estado várias vezes no Brasil, para apresentações, e ali se apaixonara pela arte e música brasileiras. Conhecia Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Cecilia Meireles. Mais que a maioria dos brasileiros.
E voce ? O que faz ?
Falei de minha vida entre a fumaça dos caminhoes de São Paulo. De minha viagem pelos países da América do Sul. Meus planos e sonhos de conhecer o continente. Ela ouvia atenta, como um bom ouvinte deve fazer, sem interromper para nada. Até que olhou para mim com um olhar profundo, realçado pela profundidade de seus olhos azuis, e perguntou :
- Por que voce viaja ?
Aquela não era uma pergunta comum. Quanto custa a sua viagem ? Voce não tem medo de largar o emprego pra viajar ? Não é perigoso ? Essas sim eram perguntas que eu ouvia o tempo todo. Mas o que ela me perguntara era algo diferente. Era o tipo de pergunta feita apenas pelas pessoas que sabem que algumas perguntas não tem apenas uma resposta. Me calei por um segundo, fascinado pela experiencia. Quase não precisei pensar para responder :
- Bem, voce acaba de se tornar um dos motivos.
Um beijo. Molhado, demorado, sincero. O mundo girou, talvez pelo efeito do vinho uruguaio, talvez pelo mágico vento de um instante especial. Passamos juntos cinco dias e cinco noites. Entre notas de violoncelo e o por-do-sol hipnotizante às margens do Rio De La Plata. Cinco dias, apenas 120 horas. Nada se comparado a uma vida. Uma vida, quando esse é todo o tempo que se tem ao lado de alguém.
- Então, é assim. Em alguns minutos, eu entro no meu onibus e voce no seu. E nós nunca mais nos vemos. - disse ela enquanto víamos o último por-do-sol, no mesmo ponto de onibus em que tudo começara.
Não pude responder. Ela entendeu. Algumas perguntas tem mais de uma resposta. Olhou para mim com os olhos vermelhos, segurando a minha mão.
- Por que voce não fica aqui um tempo ?
- Não posso - respondi. - Há algum tempo atras, cometi o erro de desistir dos meus sonhos por estar convencido que isso era prova de amor. E por esse erro tão vulgar, paguei um preco alto. Alto demais. Eu estive no inferno. E ao sair dele, jurei não mais desistir dos meus objetivos e sonhos. Do que eu acredito.
- E no amor ? Voce não acredita ?
- Uma vez eu li, num livro do Cony, que o amor são dois trens com destinos diferentes parados na mesma estação. Essa é a melhor definição de amor que eu já pude encontrar.
Um onibus virou a esquina. Quase tombando sobre a calçada, justamente como na primeira vez em que eu a encontrei. Mas dessa vez eu nem me assustei. Dessa vez a curva do onibus tinha gosto de despedida.
- Meu trem chegou - disse ela depois de me dar um último beijo. E entrou no onibus, que saiu acelerando como se estivesse em uma corrida de arrancada.
Caminhei em direcao ao albergue, desviando de propósito pela rua do farol marítimo. Uma torre solitária, voltada para o mar, com uma luz forte e giratória, feita para orientar os barcos que viajam pela noite. Fiquei um minuto em frente à torre. A lampada gigantesca se acendeu e começou a girar. Coloquei a mão no bolso da jaqueta, e encontrei uma página de livro rasgada, com um poema de Cecilia Meireles.
Como voce ve, essa é só mais uma daquelas histórias romanticas. Nada de especial. Apenas o encontro ocasional de duas almas em busca de respostas, que por uma dessas brincadeiras do destino estavam no lugar certo, na hora certa. O tipo de história que não tem mais importancia nos dias de hoje, e que provavelmente será motivo de chacotas caso voce conte a seus amigos. Talvez nem mereça ser lida. Só mais uma daquelas histórias com final feliz previsível. Felicidade encontrada não na segurança de um felizes para sempre, mas na beleza de um momento inesquecível.
Olhei novamente para a luz da torre que ficava mais forte a medida que anoitecia. Por um segundo, eu entendi a solidão do farol...
Epigrama no. 9
O vento voa,
a noite toda se atordoa,
a folha cai.
Havera mesmo algum pensamento
sobre essa noite ? Sobre esse vento ?
sobre essa folha que se vai ?
Cecilia Meireles