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Descobrindo a América BLOG ! Viajando de Mochila pela America do Sul



    Chuy, Uruguai - 27 de Março de 2005  

7. O Monstro do Chuy

- E qual o seu nome ? - Perguntei eu tentando reclinar a poltrona que cheirava a mofo dentro do onibus para a Cidade de Chuy.

    - Javier. - Respondeu o Espanhol.

    Já viajávamos juntos há dois dias, e só agora lembraramos que apresentações e nomes se faziam necessários. As vezes isso acontece. Quando se conhece alguém com profundidade de pensamento e experiencias a compartilhar, as perguntas padrão acabam ficando para depois.

    - Voce viu quantas horas de viagem temos daqui de Porto Alegre até o Chuí ? - Perguntou Javier olhando para o mapa da America do sul que eu tinha no colo.

    - Bom, sao 550 quilometros. Acho que pouco mais de sete horas de viagem. Só estou preocupado em conseguir um hotel numa cidade tao pequena as 3:30 da madrugada. - Respondi observando os dois jovens de aparencia peculiar que entraram no onibus falando alemão e sentaram-se nas poltronas a frente de onde estávamos.

    Viajar para uma cidade sem reservar o hotel ou albergue nunca é aconselhável, mas devido ao feriado de Páscoa os dois albergues da minha lista estavam lotados, de forma que nao nos restou outra opção. Não que isso fosse o fim do mundo, já que imprevistos sao parte integrante da viagem. Contudo, era facil prever que procurar por um lugar para ficar em plena madrugada, depois de viajar por sete horas em assentos apertados nao seria uma experiencia das mais agradaveis."Bem, cada coisa a seu momento". Era o que eu pensava observando a rodoviaria de Porto Alegre pela janela embaçada do onibus enquanto o pastel da janta dançava em meu estomago.

    Logo fui distraido pela aparente impaciencia dos alemães da poltrona da frente, que pareciam xingar a mãe do motorista a cada dois segundos. A diversidade de raças e culturas que convive nos onibus de viagem da America do Sul cada vez me surpreendia menos. Era possivel ver de tudo. Estes alemães eram um exemplo tipico dessa diversidade. Um deles era loiro e magro, com os cabelos chegando até a cintura. O outro, tinha cabelos negros que curiosamente se juntavam com a barba que cobria metade do rosto e terminava em uma longa trança que ia do final do queixo ate a altura do estomago. O idioma parecia ser indecifravel, mas xingamentos parecem ser uma linguagem universal. Voce quase sempre sabe quando alguem esta xingando, seja em alemão, portugues, espanhol ou hebreu. Após vinte minutos de atraso, finalmente iniciamos a viagem.

    - Pra mim, o problema de viajar à noite é que não se pode ver a paisagem e eu nunca consigo dormir em um onibus. - Disse eu a Javier, entediado.

    - É, para mim também. Nunca durmo em um onibus. - Respondeu ele sério.

Vinte minutos depois, meu amigo dormia de boca aberta apoiando a cabeça no encosto da poltrona e eu tinha seis horas e meia de tédio pela frente. Resolvi ler um pouco. Duzentas e oitenta paginas depois, chegavamos a cidade de Chuy. Descemos do onibus no posto policial de fronteira para carimbar passaportes, acompanhados apenas dos dois alemães que aparentemente tambem ficariam na cidade. Todos os outros passageiros seguiram viagem. Com passaportes carimbados e burocracia em dia, saimos em direção ao unico taxi estacionado que pudemos ver por ali. As tres da manha, tudo parecia deserto. Um relampago riscou o céu da noite fria. Em trinta segundos, pude sentir o primeiro pingo da chuva gelada que caía mansa e fina.

    Perguntamos ao motorista de taxi sobre hoteis bons e baratos. Nao havia muitos, segundo ele. Mas conhecia um onde poderiamos passar a noite. Nesse momento isso era tudo que queriamos, um lugar para passar metade de uma noite, ja que nosso onibus para Punta del Este partia às 10:30 da manhã. Javier entrou no taxi. Antes que eu pudesse entrar, vi os dois alemães correndo em direção ao carro, gritando um pouco desesperados :

    - Hey, hey. Esperem.

    Fiz sinal para que o motorista esperasse. Os dois diminuiram o ritmo da passada. Carregavam mochilas enormes, que pareciam bem pesadas. Ao chegar, perguntaram se estavamos indo a algum hotel e se podiamos dividir o taxi, ja que nao havia outro por ali. Respondemos que sim e todos entraram no carro. Andamos por uns dois quilometros, até uma casa velha com um letreiro luminoso que dizia : Posada del Sueño. Pagamos o taxi e descemos, indo em direção à porta da pousada.

    Apertamos a campainha. Nenhum som, parecia estar quebrada. Bati algumas vezes na porta. Nada. Nenhuma resposta. Não parecia haver ninguem na recepção. Na verdade, não parecia haver ninguem na pousada inteira. Não fosse por uma luz intermitente no segundo andar, que parecia vir de um aparelho de TV, poderia jurar que era uma pensão abandonada.

    Caderno de lições de viagem. Anotação numero 23 : Nunca dispense um taxi antes de verificar se o hotel esta aberto.

      - E agora ! O que a gente faz ? Não tem ninguem ai ! - disse o alemão com tranças na barba em tom de desespero.

    - Gente tem. Tem uma TV ligada lá em cima. - Respondeu Javier tranquilo.

    Mais um relampago riscou o céu. Os alemães resolveram gritar frases como " Oi ! Tem alguem ai ?", tentando chamar a atenção de quem quer que estivesse no segundo andar. Após perceber que os gritos eram abafados pelo barulho da chuva, desistiram.

    - Fuck ! Fuck! - Gritava um deles enquanto o outro balançava a cabeça em sinal de negação.

    Olhei para a calçada e pude ver um montinho de pedras soltas, dessas normalmente utilizadas em construções. Fui até o monte e escolhi as menores. Javier como que adivinhando meus pensamentos interveio :

    - Não. Voce não vai fazer isso, vai ? - Disse ele preocupado.

    - Voce prefere dormir aqui na rua ? - respondi sorrindo.

    - Ok. Mas devagar pra nao quebrar a janela.

    Peguei uma das pedras. Mirei na sacada tentando calcular a força certa para que o arremesso fizesse barulho mas não quebrasse o vidro. Arrisquei um primeiro tiro. Acertei a parede um pouco abaixo da porta em forma de arco.

    - Um pouco mais de força. - Disse Javier ja mais animado.

Tentei novamente. Dessa vez com mais força e arremessando mais alto. !!!TOOOCCC!!!. Em cheio. E com sorte suficiente para fazer barulho e nao quebrar nada. Pudemos ouvir o barulho da pedra acertando o vidro. Certamente quem estivesse do lado de dentro tambem ouviria. Não demorou muito até que uma sombra aparecesse na janela.

    - Holaaa ! Queremos un cuartooooo ! - Arriscou o alemão em mal espanhol.

    Fomos até a porta, que logo se abriu rangendo. Pudemos ver um tipo baixo e gordo, devia pesar uns 150 quilos, cabelos espetados como quem acaba de acordar. Em uma mão um sanduiche de carne pela metade, na outra um copo com vinho. Vestia algo que parecia ser um conjunto de pijamas, uma calça azul e uma camisa branca, toda manchada de vermelho, provavelmente ketchup, ja que tinha um restinho de lanche no canto da boca.

    - Oi. Desculpe incomodar, é que precisamos de um quarto para dormir. - Disse Javier gaguejando um pouco.

      Estavamos todos um pouco incomodados com aquela visão. Um dos alemães alisava as tranças da barba com cara de preocupado, o outro só balancava a cabeça como quem não acredita no que esta acontecendo. Eu só conseguia olhar ao redor tentando descobrir onde poderiam estar as cameras escondidas. Talvez estivessemos em uma pegadinha de TV.

    - Desculpe, mas esse hotel está fechado. Fechamos já fazem vinte dias. - Respondeu o homem sem largar o lanche e o copo.

    - Como assim fechado ? - perguntou Javier perplexo.

    - Isso aqui era do meu avo. Mas ele já estava muito velho. E mes passado morreu. Dormindo coitado. Pelo menos foi uma morte tranquila. Agora estou morando aqui, mas não estamos mais funcionando como pousada.

    Por um momento eu achei que talvez estivesse tendo dificuldades com o idioma espanhol. Talvez eu não tivesse entendido direito. Será que foi isso que ele falou ? Que o dono do hotel morreu ? Não podia ser. Perguntei a Javier se eu tinha entendido tudo corretamente. Ele confirmou a historia. Os alemães nao entendiam uma palavra. Ficavam ali olhando pra gente esperando uma tradução para o ingles. Lá fora, a chuva piorava.

    - Olha, - Disse Javier com olhar de quem pede um favor - será que voce não pode alugar um quarto pra gente só até as nove da manha ? Com essa chuva aí fora nao da pra ficar na rua. Pagamos adiantado.

    - Os quartos aqui estão todos fechados e com a mobilia empilhada. Só tem o quarto que era do meu avo. Se voces não ligarem de dormir lá tudo bem.

    - Não tem problema. Ficamos com o quarto.

    Pagamos na hora. Pegamos as mochilas e subimos acompanhando aquele sujeito estranho. No caminho, Javier traduzia para os alemães tudo que tinha acontecido. A Cada palavra eles arregalavam mais os olhos e um deles puxava as trancinhas da barba com tanta força que por um momento pensei que fosse arrancá-las.

- Como assim morreu dormindo ? Então morreu nesse quarto ? - perguntou o alemão coçando a barba.

    - Não sei. Não perguntei. - Respondeu Javier.

    Tudo que o alemão fazia era dizer xingamentos. As vezes em ingles. As vezes em alemão. Fechamos a porta do quarto, que era muito espaçoso, e até que arrumado. O problema é que só havia uma cama. Um problema não muito grave, já que por alguma razão misteriosa ninguem parecia ter muita vontade de dormir nela. Os alemães tiraram os sacos de dormir da mochila e mais que depressa os estenderam em um canto do quarto. Joguei par ou impar com Javier, que ao ganhar escolheu a cama. Por mim tudo bem, estava mais que contente com meu saco de dormir. Já eram quase quatro da manhã.

    Apagamos a luz do quarto. Por alguns minutos tudo parecia tranquilo. Até que o reflexo de um relampago na janela iluminou o quarto. Nesse minuto, um dos alemães soltou um grito histérico.

    - Aaaahhh. Daizen baizen maich - Gritou em seu idioma natal. E saiu correndo pela porta do quarto em direção ao corredor.

    - O que foi que ele disse ? - perguntei ao seu amigo acendendo a luz do quarto.

    - Que tem alguem embaixo da cama. - Respondeu ele pulando de onde estava.

    Javier saltou da cama rapidamente. Em seguida olhou embaixo do móvel antigo e retirou de lá um quadro um pouco empoeirado. Um homem vestido elegantemente, posando para a foto com olhar de Mona Lisa, aquele que segue o observador onde quer que ele esteja.

    - Realmente, dá pra se assustar com isso - Disse Javier com um sorriso um pouco tenso.

    Não houve tempo para muito mais conversa. Ouvimos outro grito e dez segundos depois, lá vinha o alemão novamente com os olhos esbugalhados. Entrou mais do que rápido e trancou a porta, dando duas voltas na chave.

    - O cara tava lá na cozinha com uma faca na mão. Parece um monstro. Vamos embora daqui. - Dizia ele desesperado.

    Por um minuto ponderamos sobre o assunto. Ora, nada mais normal que alguem com uma faca em uma cozinha, diziamos uns aos outros buscando tranquilizar o pobre coitado.

    - Mas o cara parece um monstro. Se eu sair vivo daqui eu volto amanhã pra Alemanha. - Dizia ele quase aos berros.

    Ninguem dormiu pelo resto da noite. Assim que meu relogio de pulso bipou, avisando que eram nove da manha em ponto, alguem bateu na porta. Javier levantou-se e para desespero dos dois alemães abriu o quarto.

    - Bom dia. Voces querem tomar cafe ? - Perguntou o agora elegante homem de terno e gravata e gel no cabelo, que não fosse pelo tamanho e peso, pensariamos ser outra pessoa.

    - Não obrigado. Já estamos de saida - respondemos colocando as mochilas nas costas.

    - E agora ? Caminhamos até a rodoviária ? - Perguntou Javier assim que alcançamos a rua e vimos a luz do dia.

    - Claro. E rápido. Antes que o cara resolva beber de novo a poção que o tranforma no monstro do Chuy - respondi apertando o passo.

 

   [ Marcus em 19/4/2005]



Comentários

Fala Marcus...
Estou lendo suas histórias e estou vidrado!!! Há duas semanas eu estive no Chuy, fui de carro de São Paulo até lá e curti muito, parabéns, você escreve muitíssimo bem!!! Cabe muito bem um livro para isto!!!
Um abraço

[ Enviado por Fábio Ferraz em 11/1/2006 ]


Doido d mais! Vc escreve bem d mais! entrei hj no seu site e ja li td ahaah to esperando o proximo post! procura passar sempre por uma lan house! pra ta escrevendo!
Boa sorte ae nas viagens!
[]`s

[ Enviado por Rafilskis em 29/4/2005 ]


fico aqui imaginando qual será a próxima aventura !!
essa foi boa demais !!

bjocas

Lu.

[ Enviado por Luciana em 26/4/2005 ]


Muito bom mesmo!!!

Tenho visitado sempre esta página, parabéns!!!

[ Enviado por Rodolfo em 26/4/2005 ]


Haha!! Marcus, quem te viu, quem te vê!!! Estou adorando!! Beijos...

[ Enviado por Vania em 24/4/2005 ]


Cara muito bom isso, estou rindo pra caramba. Além da viagem que estou acompanhando ainda tem muito humor pra curtir. Não deixe de escrever sempre que puder, fico anciosa esperando......... Besos.

[ Enviado por Marcia em 23/4/2005 ]


Má, estou rindo até agora! Muito legal!
Adorei ... "Caderno de lições de viagem...anotação 23"!!!
Pelo que vejo em seus relatos vc não perde o humor em momento algum né?!........está certíssimo, continue aproveitando cada momento com muita intensidade!
Super Beijo...Saudades!
Di

[ Enviado por Di em 19/4/2005 ]


Huahuahuahuahua...
Essa estória foi muito hilária! Me fez lembrar do suposto "fantasma" que eu via da janela do quarto do hotel onde fiquei em La Paz, nos fundos da catedral, mas que se tratava apenas de uma batina pendurada na janela, que só pôde ser revelada na manhã do dia seguinte, me causando muito medo.
Mantenha essa página sempre atualizada, por favor. Acompanho sua viagem com muito entusiasmo.
Um abraço

[ Enviado por paulo_nicolau@hotmail.com em 19/4/2005 ]


Deve ter sido uma situação difícil, mas eu ri prá caramba... Entro no seu site todos os dias, estou adorando e viajando junto. Té +

[ Enviado por Ivani (esposa do Minhoca) em 19/4/2005 ]



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