Porto Alegre, Brasil - 25 de marco de 2005
6. Anoiteceu em Porto Alegre
Confesso que a idéia de chegar sozinho à Porto Alegre, um lugar com os problemas e atracoes de toda metropole, depois das 9 da noite me assustava um pouco. Cidades assim sao como uma selva e mochileiros em busca de um albergue para passar a noite sao presas fáceis para trombadinhas de plantao, os predadores naturais das grandes cidades. Ao chegar e ser rodeado por garotos de rua pedindo moedas, foi facil perceber que a capital do Rio Grande do Sul, transformada em Gotham City pela escuridao de uma noite sem lua, nao é lugar para amadores. A pobreza que assola o país é notada também aqui e estacoes rodoviárias nao costumam estar localizadas na melhores áreas das cidades.
Por uma jogada do destino, foi nesse cenário sombrio que encontrei meu primeiro, de muitos que ainda espero encontrar, companheiro de viagem. Depois de um tempo na estrada, voce aprende a reconhecer mochileiros em viagens de longa duracao. Nao que seja dificil. Enxergar pessoas com grandes mochilas nas costas e botas sujas de barro costuma ser muito mais fácil que achar o Wally em um daqueles livrinhos famosos. E assim, ao passar perto de um dos guiches de venda de passagens, pude claramente perceber que alguem tinha problemas.
- Hay billetes para Chuy ? - Dizia ele sem a minima chance de ser compreendido pela funcionária da companhia rodoviária.
A lei de acao e reacao de Newton diz que quando uma bola de bilhar atinge outra com velocidade e forca suficientes, a outra bola se move. Talvez seja assim também na vida. Ao ajudar alguém, voce dispara uma reacao em cadeia que traz resultados benéficos para voce mesmo. Daí que, nao tivera eu me metido na conversa, nunca saberia que devido a semana santa, todos os onibus para a cidade de Chuy, meu proximo destino, estavam lotados por 10 dias em todas as companhias que operavam o trajeto, a nao ser por dois lugares para as 20:30 do dia seguinte. Eu planejava passar tres dias em Porto Alegre, mas nao podia arriscar perder dez dias de viagem por falta de transporte em uma cidade tao grande. Compramos as passagens.
- De onde voce é ? - Perguntei aproveitando a oportunidade de praticar meu espanhol.
- Sou da Espanha. Estou indo a Punta del este e de lá a Montevideo e Buenos Aires. - Respondeu ele com um sotaque espanhol diferente do sotaque sulamericano.
- Que interessante. Estou fazendo o mesmo caminho até Buenos Aires. De lá vou mais ao sul, até Ushuaia e depois subo pelo Chile.
- Ah, eu fiz este caminho também. Estou indo a Buenos Aires para pegar o aviao de volta para a Espanha. Estive viajando por seis meses e agora é hora de voltar para casa. Voce sabe onde é o albergue daqui de Porto Alegre ? Vou passar a noite lá.
- Bem, na verdade também vou pra lá. Pelo meu mapa o albergue é bem perto, poderiamos ir andando. Mas nao estou bem certo se deveriamos. Cidades grandes nao dao margem para erro.
Caminhamos um pouco contornando a estacao rodoviaria. Dali, pude ver o letreiro luminoso do Albergue, que pelos meus cálculos estava a um quilometro da estacao. O problema é que no meio do caminho havia uma pedra. E um viaduto. E muitos predios e ruas escuras.
- É, acho que andando nao é uma boa idéia. Topa rachar um taxi ? - disse eu em tom de preocupacao.
Ele aceitou prontamente. Nao havia mesmo outra solucao. Ao colocar as mochilas no carro, nos vimos novamente cercados por garotos de rua pedindo moedas. Entramos no taxi. Aproveitei para conversar com o motorista, como que me despedindo da lingua portuguesa. Sabia que em algumas horas já estaria no Uruguai, e que daqui para frente o idioma oficial seria o espanhol.
- E entao. O que há pra se fazer aqui em Porto Alegre ? - Perguntei ao motorista com ar de turista acidental.
- Ah, aqui tem bastante coisa. Tem shopping, cinema, o parque ao lado do rio. - Respondeu ele com a autoridade de quem conhece a cidade como ninguém.
- Eu ouvi falar de um mirante de onde se pode ver a cidade toda. Vale a pena ir até lá ?
- Tem a torre da Embratel. A vista é bonita. Mas esta um pouco complicado lá. Semana passada sequestraram um cara do Rio que estava lá em cima tirando fotos. Se voces quiserem amanha voces podem me ligar que eu levo voces até lá. - Disse ele enquanto tirava do bolso um cartao com telefone.
O espanhol olhou para mim com cara de assustado. Sequestro é uma palavra forte para um estrangeiro. Infelismente já nao soa tao estranha para nós brasileiros.
- Meu amigo, essa é a pior estratégia de marketing que eu já vi na vida. - Respondi ao motorista em tom de brincadeira.
Chegamos ao albergue, um hotel com quartos individuais com banheiro e TV. Há alguns meses atrás um quarto como esse, de hotel uma estrela, me pareceria muito ruim. Hoje, depois de experiencias como dormir em dormitórios para 8 pessoas com banheiro compartido, e descobrir que o campeao nacional de ronco da Suécia é seu companheiro de quarto, aquilo parecia um luxo.
Deixamos a bagagem nos quartos e descemos para procurar um lugar para uma refeicao rápida. A noite já caía e havia poucos lugares abertos. Entramos em uma padaria perto do hotel, que anunciava : PFs por R$ 3,50. Pedimos dois. Arroz, feijao, salada e carne. Tudo bastante engordurado. Viajar é assim. É preciso comer o que há para comer, dormir onde se pode dormir. As vezes é preciso ter estomago de avestruz. No comeco, voce acha que nao vai se acostumar. Mas se acostuma. A verdade é que a gente se acostuma com tudo.
Fui dormir cedo. E acordei cedo também. Tinha pouco tempo para ver a cidade, já que o onibus para Chuy saía as 20:30. No corredor encontrei o espanhol, com cara de sono e camera fotográfica na mao. Decidimos sair para explorar a cidade. Fomos a praca principal, ao parque que beirava o rio e almocamos no mercado central. Dessa vez uma refeicao muito melhor. O típico churrasco gaucho.
A noite chegou rapido. E antes que eu me desse conta, já estava no onibus, a caminho da primeira fronteira da viagem...
[ Marcus em 10/4/2005]
Comentários
Interessante a descrição da prieira parte da viagem. Sou de Curitiba e chegamos (eu, minha esposa e dois filhos pequenos) hoje a Porto Alegre (de carro), quase à meia noite, e fiquei perdido tentando achar um hotel recomendado, por pura sorte achei o tal hotel . . .tive sorte . . . terei mais cuidado hoje no meu segundo dia. Vou Para Chui, Montevideu e Buenos Aires. Valeu.
[ Enviado por Bruno em 31/12/2007 ]
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Ô meu amigo! Estamos com saudades! Pelo relato, acredito que você já está pronto para escrever um best seller sobre a Am. do Sul! Você ainda não estava do outro lado da frontei, mas vejo que seu espanhol já está mostrando as caras no "compartido" do antepenúltimo parágrafo!! Cara boa viagem e cuidado! Abraços Cassio
[ Enviado por Cassio Garcia em 12/4/2005 ]
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E viva os espanhóis!!! Uma vez, em Salvador, fui salvo de uma ensolação por um espanhol dermatologista, que mochilava por lá! Se não fosse por ele, eu teria arruinado toda a minha viagem naquela época e sofrido muito mais com as queimaduras solares. Porto Alegre é realmente uma cidade bastante apavorante, mas nunca perde o charme. Espero que sua aventura seja sempre bastante gratificante, não apenas nos lugares por onde passar, mas também com as pessoas que conhecer. Um abraço!
[ Enviado por paulo_nicolau@hotmail.com em 11/4/2005 ]
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isso me lembra quando passei uma semana em Porto Alegre, em janeiro. A noite no centro é assustador mesmo, mas o pior foi ser assaltado numa bela manhã de domingo, 2o. dia de viagem, q me deixou meio traumatizado... Boa viagem!!
[ Enviado por giPa www.fotolog.net/gipa em 10/4/2005 ]
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