5. Admiravel Mundo Novo
-Interessante ! E quanto vai custar essa viagem ? - Perguntou o bigodudo que teimava em puxar assunto no onibus para Florianopolis.
Imediatamente uma sensacao de tedio se abateu sobre mim. Sempre a mesma pergunta. As pessoas sao assim, nao lhes interessa saber sobre a sensacao incrivel de liberdade que se sente viajando, as almas maravilhosas que se pode encontrar, as paisagens, as amizades, as razoes, as paixoes. O que importa é o dinheiro. Já conformado, eu me ponho ao seu alcance. Falo de custos, prazos, distancias. Precisamos nos comunicar em niveis diferentes com pessoas diferentes se quisermos viver em paz nesse mundo. Enquanto isso, eu continuo buscando as pessoas que sabem fazer as perguntas certas.
Quando cheguei em Florianopolis, o sol estava a pino e meu termometro de bolso marcava 39 graus. Meio dia. A pior hora para caminhar por uma cidade. Levantei da poltrona lentamente, tentando ignorar a sensacao de dormencia nas pernas depois de uma viagem de cinco horas, desci do onibus espreguicando e fui pegar minha mochila. Após a confusao habitual para recuperar a bagagem, fui direto ao setor de informacoes turisticas da rodoviaria, um dos muitos truques que aprendi com outros mochileiros quando estava em Curitiba.
- Boa Tarde moco. Posso ajuda-lo ? - Perguntou a atendente com um sorriso simpatico.
Me surpreendi. Apos quatro dias em Curitiba já tinha me acostumado com pessoas de cara amarrada, o choque cultural de alguem com um sorriso no rosto foi grande e bem vindo.
- Boa Tarde ! Estou procurando o albergue da juventude de Floripa. Voce sabe onde é ?
- Ah, é bem facil. Dá pra ir a pé. É só subir a avenida principal e virar à esquerda depois do fim da subida.
Sai devagar da estacao rodoviaria, caminhando pela avenida principal à beira mar, olhando as ondas que quebravam com forca nas pedras e admirando a beleza da ponte que liga a ilha ao continente. É uma paisagem de impacto visual, uma capital diferente de todas as outras capitais brasileiras que eu já vi. Talvez seja a mais bonita. Depois de quase um quilometro de subida debaixo do sol de quarenta graus da cidade, eu incorporava uma outra licao ao meu livro de anotacoes : Sempre pergunte as distancias quando pedir informacoes.
Cheguei ao albergue pingando suor, como se tivesse chovido. Me apressei em fazer o check in. Naquela hora tudo o que eu queria era uma ducha gelada. Depois de uma rapida conversa com a atendente da recepcao, pude perceber que realmente estava em um lugar com pessoas muito mais simpaticas e abertas a conversacao.
Subi as escadas com a mochila nas costas em direcao ao primeiro andar, tentando explorar o novo ambiente. Um dos fatos interessantes sobre viajar hospedando-se em albergues, é que voce nunca sabe o que vai encontrar. A definicao de albergue é muito ampla e vai desde uma casa velha e escura com banheiros fedorentos onde todos os mochileiros vao por falta de opcao até um hostel muito bem estruturado, com quartos e banheiros limpos e ambiente propicio a novas amizades. Felizmente, esse era o caso do albergue de Florianopolis. Um lugar muito agradavel, com sala de estar onde os viajantes podiam conversar, cozinha equipada, varanda com vista para a rua, tudo muito bem organizado, mais parecendo um hotel. E o mais importante, o preco pequeno.
Decidi subir logo para o quarto, arrumar minha bagagem e finalmente conseguir minha ducha. Ao abrir a porta, me deparei com um comodo pequeno, com uma beliche de cada lado da janela que ocupava a parede central. Apenas a cama de cima de uma das beliches estava desocupada, o que significava que eu teria tres companheiros de quarto. Essa, alias, é uma outra caracteristica da hospedagem em albergues. Voce nunca sabe quem vai estar no quarto com voce. O que por um lado é bom, já que o intercambio cultural de experiencias pode ser enorme, gera tambem um grande problema : onde deixar suas coisas de valor como camera fotografica, dinheiro e passaporte. A maioria dos albergues oferecem lockers, que sao pequenos armarios de ferro com um encaixe para o cadeado. Logo vi que esse era o caso ali. Um locker para cada um dos ocupantes do quarto. Tranquei minha mochila pequena no armario e a apos um banho gelado, estava finalmente pronto para explorar a Ilha de Florianopolis.
Visitar lugares tao turisticos como a capital de Santa Catarina tem algumas peculiaridades. Após dois dias na ilha, eu me sentia vagando por uma cidade fantasma. Praias desertas, ninguem nas ruas, lojas fechadas, hoteis vazios. O que no verao fora uma cidade congestionada e cheia de vida, sofria agora com o esquecimento da baixa estacao. Apesar de tudo, uma coisa me impedia de ir embora : o ambiente no albergue de Floripa. Aquilo era incrivel. Mochileiros de todas as partes do mundo, da Australia à Africa do Sul, da Argentina à Alemanha. Como em todos os albergues do mundo, aqui a lingua oficial era o ingles, com os mais variados sotaques e niveis de fluencia idiomatica, seguido de perto pelo idioma espanhol e um pouco de portugues, cada vez mais raro de se ouvir.
Há uma atmosfera de comunidade secreta em um albergue como esse. Um submundo de mochileiros que passam despercebidos no dia a dia das cidades grandes, mas que estao por toda parte. Aqui descobri que minha mochila nao estava tao pesada assim, comparando com os 25 quilos de bagagem que muitos carregavam. E que viajar sozinho é a melhor forma de estar acompanhado.
Nesse ambiente, amizades e paixoes sao passageiras e intensas. Quase todos tem destinos e rotas diferentes. Compartilha-se um jantar, um passeio, um trecho de viagem e muitas despedidas. As vezes para um feliz reencontro na proxima parada. As vezes para nunca mais. Assim é a vida...