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Descobrindo a América BLOG ! Viajando de Mochila pela America do Sul



    Curitiba, Brasil - 17 de março de 2005  

4. Hospitalidade Curitibana

Quando a imagem de meus pais acenando em despedida foi diminuindo ate finalmente se transformar em apenas mais um pequeno ponto na grande janela do onibus vazio que me levava a Curitiba, eu como que por reflexo me belisquei. Era verdade. As linhas desenhadas no mapa eram agora caminhos reais.

    O beep agudo do relogio me avisou que ja passavam das oito da manha, mas mesmo apos 24 horas sem dormir, sono éra o que eu menos tinha.

    As janelas do onibus eram altas e largas, quase panoramicas, um lugar privilegiado para se observar a paisagem, cinza como toda cidade grande, congestionada como toda segunda feira. Daqui podia ver a cidade se movendo lentamente, um semaforo por vez. Como que por brincadeira, me pus a observar as pessoas em seus veiculos, seguindo sua rotina diária a caminho do trabalho.

    Um vidro fechado de uma janela de automovel parece representar uma barreira psicologica para a raca humana. A garota no carro compacto azul logo a frente do onibus enfiava metade do indicador no nariz enquanto o engravatado no automovel maior falava sozinho, com gestos e tudo, como se houvesse alguem no banco de passageiros. Mesmo que as janelas sejam transparentes e eventualmente todos os ocupantes dos veiculos olhem para os lados, ninguem parece achar estranho uma discussao solitaria ou um dedo inteiro enfiado no nariz.

    Pouco a pouco, a paisagem da metropole foi sendo substituida pelo verde vibrante da serra do mar paulista, com pontes fincadas em abismos e tuneis perfurando montanhas. A viagem pelo litoral é linda e embora já tenha estado aqui dezenas de vezes nos feriados nacionais, nunca tinha realmente reparado na belezas da paisagem e no impacto visual ao se avistar as cidades litoraneas alguns quilometros abaixo. Me recostei no assento tentando achar uma posicao confortável, o que era impossivel com a sensacao de cansaco que se abatia sobre mim. O onibus parava a cada nova cidade para que passageiros pudessem embarcar e logo percebi que a viagem seria longa. Em algumas horas, todos os assentos estavam ocupados.

   Olhei para os lados, todos dormiam. Decidi que o melhor a fazer era aproveitar meu tempo no onibus escrevendo e estudando espanhol e após oito horas e meia de solavancos e estrada esburacada, uma chuva fina caia sobre a cidade de Curitiba, que eu observava por entre as gotas d´água que brincavam de pega pega no vidro da janela do onibus. De repente, Curitiba não era mais só uma tachinha fincada num mapa da parede do quarto. Era uma cidade viva, com pessoas correndo apressadas da chuva e carros buzinando.

    Uma segunda feira normal para a maioria dos habitantes da cidade. Para mim, um daqueles dias que ficam para sempre gravados na memoria. Saí rapido do onibus e fui buscar minha mochila no compartimento de bagagem.


Existem algumas leis universais que regem nosso mundo. As leis da fisica que tratam da forma como as coisas se movem, as leis da quimica que tratam da forma como os elementos reagem entre si, as leis da mecanica quantica que tratam da forma como os atomos se comportam. Porém, talvez o conjunto mais importante de leis seja mesmo aquele chamado de leis de murphy. Esse conjunto se aplica às mais diversas areas do conhecimento humano, incluindo-se aí as viagens. A primeira e mais conhecida lei de murphy é : Se algo pode dar errado, isso acontecerá na pior hora possivel. A segunda talvez seja: Se voce estiver perdido em uma cidade grande, a garoa fina imediatamente se transformará no maior toró que voce ja viu na vida.

Ao sair da rodoviaria logo percebi que a segunda lei entrara em acao. A chuva era torrencial, com agua jorrando dos bueiros e pocas se formando nas ruas. Resolvi pegar um taxi até o albergue, que ficava a apenas 2 quilometros da estacao rodoviaria, antes que as coisas piorassem.

   Entrei em um dos radio taxis vermelhos, sentei no banco de passageiros ao lado do motorista e tentei puxar assunto e descobrir informacoes uteis sobre a cidade.

    - Nossa, que chuva ! - disse eu para iniciar a conversa.

    O motorista olhou para o lado, com cara de quem, já há alguns meses, vinha sofrendo de problemas de prisao de ventre. Em seguida, voltou a olhar fixamente para o semaforo, sem dizer uma palavra. Achei estranho, talvez estivesse descontente com a corrida curta, mas a hipotese dos problemas intestinais não me saia da cabeca. Resolvi me calar e deixar a conversa para a recepcao do albergue. Talvez lá fossem mais simpaticos, pensei eu esperançoso. Dez minutos de silencio gelado depois, eu entrava com um sorriso no rosto e uma mochila nas costas no albergue da juventude de curitiba, um predio antigo, um pouco mal cuidado, em frente à velha estacao de trens da cidade.


Parque Tangua

- Boa noite ! - falei eu cumprimentando a atendente da recepcao.
    - Tem reserva ? - respondeu ela com a mesma cara de problemas intestinais do motorista de taxi.

    Respondi que tinha reserva e ela logo se pôs a vomitar rapidamente palavras sobre os pontos turisticos da cidade, na velocidade de um radialista narrador de futebol.

    - Entendeu ? - perguntou ela bufando.
    - Nâo. O gol foi de quem ? - respondi com bom humor irritante.

    Ela sorriu. um sorriso de meio centimetro, mas ainda assim um sorriso. Peguei as chaves e fui para o quarto. Ao entrar, fui recebido por um rapaz alto, de cabelos compridos, que me pareceu ser argentino.

    - Bienvenido - disse ele em um espanhol com sotaque.

   Agradeci o cumprimento e logo comecamos a conversar. Éra americano, viajando pela America do Sul. Ao chegar em Curitiba, se apaixonou pela cidade e resolveu ficar, trabalhando ilegalmente como professor de ingles. Eu nao esperava encontrar gringos tão cedo. Duas horas de conversa e uma caminhada pela cidade depois eu teria duas surpresas. A primeira seria descobrir que eu era o unico brasileiro no albergue. A segunda, seria perceber que eu era tratado muito bem pelos gringos e muito mal pelos curitibanos, brasileiros como eu. Todos na cidade pareciam estar constantemente de mal humor, com a cara amarrada e uma expressão extremamente séria.


Museu Oscar Nyemeyer

Curitiba é linda, arrumada, verde, cheia de parques, museus e turistas. Há um onibus turistico muito confortável equipado com janelas panoramicas com o qual se pode ir facilmente a todos os pontos de interesse da cidade. Dentro do onibus é facil fazer amizade com outros viajantes. O assunto preferido para iniciar uma conversa é a beleza da cidade. Após alguns minutos a conversa converge invariavelmente para o mau humor dos habitantes locais.

Encostei levemente a cabeca no vidro do onibus, olhando a paisagem passar como em um filme em camera lenta. Em um muro, numa placa de ferro lia-se : "Curitiba, Cidade Sorriso". Atentei para a ferrugem que corroia a dita placa, ferrugem essa que talvez também corroera o sorriso dos habitantes da cidade.

 

   [ Marcus em 22/3/2005]

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Comentários

Olá, bom em primeiro lugar parabens pela tua coragem de realizar uma viagem que muitas pessoas gostariam más não tem não tem a mesma coragem...tenho certeza que essa foi umas das melhores coisas que tu fez pra ti mesmo porque tudo o que tu apreder,tu vai adiquir um enorme conhecimento e as tuas amizades tu vai leva pro resto da vida.
Bjuss
tudo d bom na tua vida

[ Enviado por Stéphanie em 13/12/2007 ]


Achei bem legal o seu site e parabenizo vc pela coragem de fazer uma viagem destas, sozinho, coisa que espero um dia poder fazer. Sou curitibano e o que posso te dizer é para não ligar para nosso jeito de ser. Não é questão de ignorância, apenas somos um povo mais fechado e reservado que o resto do Brasil. O que não quer dizer que pessoas de fora não sejam bem vindos à nossa linda cidade. Abraço.

[ Enviado por Thiago em 24/10/2005 ]


inveja dessa viagem! to planejando fazer +- o msm caminho até bs as, espero que de certo! =] to acompanhando aqui, atualize sempre. parabens pela iniciativa e pela divulgacao, tudo muito interessante!

[ Enviado por Leandro www.fotolog.net/gipa em 25/3/2005 ]


Oiê!!!

Me diverti a bessa lendo seu novo post !! prisão de ventre foi o máximo !! hehehhe
E fiquei imaginando a cara da recepcionista do albergue !!
Assim que puder atualize ! entro todos os dias pra acompanhar sua super viagem !!!

humm, acho que já descobri como vc tirou aquela foteeenha que está de costas !! rss

Beijos e fique com Deus !!

Lu.

[ Enviado por Luciana em 23/3/2005 ]


Estava ansiosa para ler mais um texto seu sobre a viagem!
Engraçado isso do mau-humor, quando fui para Bonito também tive esse impressão em relação ao pessoal de lá.
É estranho quando a gente percebe que as vezes, as pessoas não conseguem enxergar a beleza no dia-a-dia...

[ Enviado por Janaína em 22/3/2005 ]



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