Curitiba, Brasil - 14 de Março de 2005
3. Saindo de Casa
Já era possível ver os primeiros raios de sol daquela manha de 14 de março e eu nem mesmo tinha cochilado durante toda a noite. Não que eu não tivesse tentado. Acontece que pegar no sono com um milhao de formigas no estomago não é uma tarefa das mais banais.
Foram meses de planejamento e finalmente o momento de partir havia chegado, mas tudo que eu fazia era olhar imóvel para o mapa gigante com a rota pela América do Sul, pregado na parede do quarto subitamente transformado em base de planejamento.
Cinco e quarenta da manha. Daqui a duas horas eu já estarei no onibus pra Curitiba, pensei eu olhando para as minhas duas mochilas apoiadas na parede branca do quarto que há tantos anos presenciava meus momentos de alegria e tristeza pelos caminhos da vida.As mochilas tinham sido parte essencial do planejamento do projeto de viagem desde o inicio. Tudo que eu usaria e vestiria durante 135 dias viajando pelo continente sulamericano deveria caber em uma mochila de 90 litros. Os pertences mais valiosos ou frageis, como a minha maquina fotografica, e os itens de uso diario seriam acondicionados em uma mochila menor, estilo escolar, carinhosamente apelidada de "Day Pack".
É obvio que numa viagem como essa, onde o pobre viajante tem que carregar nas costas toda a bagagem, quanto menos se leva, melhor se viaja. Acontece que fazendo parte dessa raça prepotente descendente dos macacos, mais conhecida como humanos, eu tenho muitas manias esquisitas programadas em meu codigo genetico. Inclusive a mania de sempre querer levar um pedaco de casa enquanto estou longe. O engracado é que viajamos para sair da rotina, mas fazemos o possivel para ter a ilusao de que nada mudou, cercando-se de nossos objetos favoritos, todos devidamente apertados na mala. Muitas vezes a impressao que tenho é que algumas pessoas levariam consigo a propria casa se pudessem. Pensando bem, talvez seja essa a origem das viagens em trailers. De qualquer forma, mesmo apos lutar bravamente durante toda a noite contra meus instintos primitivos enquanto empacotava as coisas, eu olhava agora para uma mochila de dezessete quilos e um Day Pack de mais de cinco.
O despertador nao demorou a tocar. Meu pai entrou no quarto, olhou meio assustado para o tamanho da mochila.
- É essa a mala que voce vai levar ? - perguntou.
- É sim - Respondi.
- Ah tá. Tem rodinhas ?
Respondi que nao. Por um momento achei divertida a pergunta, mas logo vi que fazia sentido. O tamanho da mochila cheia realmente assustava os mais desavisados. Pensando nisso, até que a sua reacao tinha sido amena, provocando em mim um misto de curiosidade e medo de saber a reacao da minha mae. Nao que eu tenha tido que esperar muito. Ela entrou no quarto dois minutos depois, olhou por alguns segundos para a mochila. Olhos virando, expressao de espanto, boca aberta, mais olhos virando.
- Ah meu Deus - disse saindo rapidamente.
Achei engracado, tentando imaginar como eles pensaram que seria a mochila quando eu anunciei a viagem ha alguns meses atrás. Todos na casa já tinham visto-na vazia, mas cheia, tenho que admitir que impressionava. Logo os rituais de surpresa familiar estavam encerrados. Levei rápido as duas mochilas para o carro sem que ninguem visse, afim de evitar mais sustos. Já estava atrasado, meu onibus saia em meia hora. Na pressa, nem tive vontade de tomar cafe.
No carro, à caminho da rodoviaria, viviamos um daqueles momentos em que ninguem diz uma palavra e todos entendem a mensagem. A despedida estava tao proxima quanto o inicio da aventura.
Chegamos apenas a tempo de colocar a bagagem no onibus e trocar um abraco de despedida. Minha mae com cara de choro, meu pai com cara de espanto, eu com a cara e a coragem.
[ Marcus em 14/3/2005]
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Comentários
"Tem rodinhas?" Essa foi ótima...rs Excelente viagem pra ti Marcus. Coragem Homem!
[ Enviado por Françoise Lengruber em 6/1/2006 ]
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Hi dear! Adorei as fotos de Curitiba! Elas me fizeram rever meus conceitos sobre o Jardim Botânico, cuja melhor memória que possuo são as esculturas de Frans Krajcberg, um escultor polonês radicado no Brasil, que faz através de sua arte sob a natureza morta, um protesto contra a devastação das florestas. Continue nos presenteando com suas impressões e não se esqueça de escrever também! Beijo...
[ Enviado por Vania Smith em 21/3/2005 ]
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Marcus, dê notícias!!
[ Enviado por Vania em 21/3/2005 ]
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Marcus muito legal, espero que vc encontre tudo que procura, TUDO DE BOM. Agora vai logo para as partes legais,sai dessa cidade que só tem gente chata. beijos..
[ Enviado por Barbara em 16/3/2005 ]
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Verdade...o momento mais difícil da viagem é o risco de não partir !! e esse vc já deixou bem pra trás....
vai em frente, pq vc pode...e vc consegue , afinal o cara lá de cima te acompanha em cada passo !!
Quero mais fotos !!
beijos
Lu.
[ Enviado por Lu Banana em 16/3/2005 ]
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Marcos,
Adorei o seu site, a sua narrativa, fiquei bastante comovida em alguns momentos e admiro muito a sua coragem. Aproveite bastante cada momento e cada lugar que estiver e não deixe de atualizar seu site, pq todo dia eu dou uma espiadinha rssss. Boa viagem e que Deus te proteja.
bjs,
Ivani
[ Enviado por Ivani (esposa do Minhoca) em 16/3/2005 ]
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"O pior naufrágio é nunca partir" Pois é... a parte mais difícil da viagem já foi. Parabéns por dar início a esta grande aventura!!! Agora é só alegria... quer dizer... nem tanto... 17+5Kg de bagagem? Estou com a mesma cara do seu pai e da sua mãe quando viram suas malas... Putz!!! Mas você supera...
E não se esqueça: Quando chegar na Argentina grita bem alto - PENTACAMPEÃO!!! Um grande abraço,
Marcelo Moreti
[ Enviado por Moresk Tour em 15/3/2005 ]
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Marquinho, Boa Sorte e que dê tudo certo na sua viagem. Mas volta logo! rrrsss Um Beijo e um abraço dos amigos, Chris e Eloisa.
[ Enviado por Chris e Eloisa em 15/3/2005 ]
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Marcus, um amigo me deu um toque sobre o seu site. Vou acompanhar sua epopéia sul-americana. Boa sorte! Boa Viagem! paulo_nicolau@hotmail.com
[ Enviado por Paulo Sérgio em 15/3/2005 ]
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