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    São Caetano do Sul, 26 de Fevereiro de 2005  

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2. Despedida em Noite de Lua Cheia

A noite já caía, fria e enluarada, quando entrei novamente naquele parque pra me despedir das árvores que ainda habitavam a minha memória mesmo após tanto tempo de ausência. Já havia há muito me esquecido da sensação dos galhos secos estalando sob os pés enquanto se caminha, que eu gostava tanto quando era garoto.

Quando foi que eu deixei de vir até aqui eu não me lembro, assim como tanta coisa na vida que eu nem sei como aconteceu. Às vezes eu tento me lembrar do exato momento em que eu deixei o medo da mudança me dominar e fazer com que eu me agarrasse à coisas, pessoas e conceitos com medo de perde-los. Como o naufrago que se agarra com todas as forças ao tronco boiando que o leva para a morte certa na cachoeira ao invés de nadar para a margem, eu me agarrava à ilusão de que algumas coisas duram pra sempre e não podem ser modificadas pelo tempo. Mas acontece que o tempo sempre vence. E tudo sempre muda. Essa é a beleza da vida, cada momento sendo único e importante.

Queria eu ter percebido isso antes. Assim eu teria vivido mais, me preocupado menos, arriscado mais, julgado menos. Quem sabe assim a lua cheia encoberta pelas nuvens que eu vejo agora tivesse um outro gosto.

O tempo não para nem espera ninguém. O sol se põe cada dia mais rapido. Encarando a felicidade como um objetivo e não como parte do caminho da vida, vamos deixando tudo pra depois. Projetos de vida que nunca saem do papel. Sonhos adiados pra assim que tivermos um tempinho. Mas nunca temos. "Assim que eu terminar a faculdade eu vou fazer o que gosto". "Só mais um ano trabalhando nos fins de semana e eu começo a viver como eu quero". "Ano que vem eu tiro férias". E quando você se dá conta, dez anos se passaram e você não fez nada. A vida é uma só. A vida é agora.


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Panorama de um parque da minha cidade



Daqui da suja escadaria do parque, cheia de pocinhas d`água, de frente para a praça central, eu posso ver o velho vendedor de doces com o seu carrinho todo enfeitado com os adesivos que vinham junto com os pacotinhos de balas de pinho. O mesmo vendedor de quando eu era garoto. O mesmo carrinho de balas. Será que ele ainda vende os pacotinhos de pinho ?

Eu hesito em ir até lá. Esse lugar me traz tantas recordações. Tanta gente que passou pela minha vida e que agora eu nem sei onde está. Onde estará o meu primeiro amigo de verdade, que dividia comigo as confissões ginasiais quando a vida se resumia a jogar bola e ir pra escola ? E a garota de quem eu gostava e pra quem mandei um bilhete anônimo com a certeza de que ela nunca saberia que fui eu, pra depois descobrir que a minha letra era tão feia que qualquer um saberia ? Por onde andará o Celso, que jogava bola com a gente e era admirado por já ter bigode aos doze anos de idade ? E a garota especial com quem eu dividi tantas tardes de domingo e juras de amor, onde estará ?

Descendo as escadas devagar e sentindo as primeiras gotas geladas da chuva fina, eu vou até o carrinho de doces. O vendedor me olha com a mesma cara de quinze anos atrás, apenas umas rugas a mais.

- Boa Noite - digo eu com a tola esperança de ser reconhecido após tanto tempo.
- Boa Noite - responde ele com uma expressão vaga, de quem já sofreu muito na vida.
- O senhor têm aí aquelas balinhas de pinho ?
- Têm sim. Tá um real.

Eu abro a carteira pegando uma nota de um e saio contente com o meu pacotinho de pinho na mão enquanto os pingos de chuva começam a ficar mais pesados.

Daqui a quinze dias começa a minha grande viagem pelo continente sul americano. Talvez eu devesse estar com medo, mas não estou. Como eu esperava, as balinhas de pinho não têm mais o mesmo gosto. Estranhamente eu não me importo. Eu apenas saboreio o momento. Está chovendo forte e eu estou aqui sentado num banco comendo balas. Eu nem tenho mais medo da chuva...

 

   [ Marcus em 28/2/2005]

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Comentários

Cara, tem certeza q vc eh formado em matematica?
eu diria literatura, psicologia ...
quem nao se identifica, quem nao sente um aperto no coracao qdo le esses relatos?

[ Enviado por Nanci Naomi em 13/6/2006 ]


Não podia deixar de comentar. Já tinha lido esse texto antes, mas não tinha comido as tais balinhas de pinho. Ganhei um pacotinho na semana passada e revivi a infância. O sabor é terrível, confesso, mas as lembranças maravilhosas. Então valem a pena!

[ Enviado por Sandra em 24/5/2005 ]



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